quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Imagens Movimentos


Um fato corriqueiro mas extremamente estranho é a criação, pela sociedade como um todo, de um impressionante banco de dados em movimento, ou na expressão de Deleuze,estamos em posse de "arquivos". Trata-se das inúmeras câmeras espalhadas pelo cenário urbano.Bancos, shoppings, estacionamentos, elevadores, supermercados, instituições públicas, condomínios residenciais, algumas escolas, aeroportos, dentre outras, se encontram vigiadas e monitoradas elaborando fonte viva de material para análise psicossocial. A invenção do uso das câmeras para filmar o comportamento de indivíduos...possivelmente saiu de práticas laboratoriais que estudam o comportamento humano, provavelmente. Por um lado, essa vigilância estendida é capaz de auxiliar em casos de desaparecimentos, roubos e outros crimes mais graves. A polícia faz uso constante dessas imagens captadas do cotidiano, assim como as mídias em geral aproveitam as cenas da bárbarie em benefício de audiência e publicidade, no entanto informam.

O primeiro fato surpreendente é que algumas décadas atrás, se a idéia de uma Sociedade de Controle fosse proposta, tal nos moldes que temos hoje, pareceria uma idéia um tanto assustadora. No entanto essa idéia se espalhou e encalácrou nas nossas vidas. Mecanismos de controle do comportamento da espécie humana sempre foram cogitados. Basta nos recordar-mos da criação de instituições psiquiátricas, conventos, prisões etc. O filosófo Bentham já havia proposto um meio de vigiar sem ser visto - o seu famoso "panopticon". Suas idéias, que hoje parecem mais pueris, ganharam força e foram se adaptando ao aparato tecnológico desenvolvido. Tecnologia a serviço da vigilância. Um fenômeno secundário (na verdade nem tão secundário assim) é a enorme criação de um mercado de máquinas de controle. Uma indústria que não para de crescer. Indústrias de Máquinas de Controle.


Profissão: observador das interações maquínicas.


Se por um lado essas quinquilharias forjam uma sensação de segurança ("estamos sendo viajados, estamos seguros") por outro, em nome dessa segurança, a coletividade autoriza a monitoração de parte da sua vida. A sensação de que estamos sendo observados, no entanto, é atribuida a alguns paranóicos, que se "alucina" acreditando estarem sendo observados. Frágil linha entre a realidade e a loucura. Curiosamente, no entanto, a proliferação da vigilância atenderia a uma importante necessidade da psiquê dos indivíduos assustados com a violência espalhada: devido a um grande empobrecimento simbólico (haverá muitas postagens sobre essa situação de empobrecimento) o que se tem é uma mente dada com mais facilidade aos sintomas neuróticos em geral. A necessidade de vigilância vem muito para atender a um certo tipo de paranóia coletiva  (diferente dos sintomas caricatos observados individualmente). O medo da violência é apenas a ponta do iceberg para compreender essas tensões psiquícas que são amenizadas quando se acredita estar sendo protegido pelo aparato de segurança tecnológico.

Um outro fator curioso é que conseguimos reduzir a complexidade de se observar a sociedade para inferir análises sociais. Evidentemente, teremos em mãos imagens reveladoras da dinâmica social e dos seus comportamentos. Muitas imagens sobrepostas poderiam revelar, por exemplo, um pouco da lógica maquínica social. Basta, portanto, assistir a inúmeros vídeos que registram a saída dos indivíduos para o trabalho. Grande parcela reproduz exatamente os mesmos sinais cognitivos (ou próximos) que auxiliam no GUIA para à ação (Chegar ao trabalho na hora marcada, por exemplo). A repetição registrada e o corpo biológico atendendo à imperativos sociais é bem explícito.




Registro de ações máquinicas: Sociedade Paranóica.


O Panopticom: Hoje dissiminado e a céu aberto 


Importante lembrar também que a proliferação dessas máquinas de controle (que controlam as ações visando dar a elas um padrão de sociabilidade desejado pelo poder hegemônico) aumentam na medida em que a violência tende a atingir o maior número de habitantes das metrópoles. Criamos, assim, um grande laboratório a céu aberto. As práticas de filmagens dos estudos comportamentais que se davam em ambientes controlados (laboratórios de estudo comportamentais) se dissiminou por todos os cantos e se encontram muitas vezes camufladas, a ponto de não notar-mos quando estamos sendo vigiados. Cada vez menores e mais discretas, a maquinária da vigilância e do monitoramento cumpre a sua mais importante função, a saber, assegurar a "normalidade", a repetição e o controle das pulsões humanas, que como sabemos, podem se externalizar de maneiras a mais variadas possível. A disseminação das imagens por métodos de controle está na mão de todos nós: os celulares, por exemplo, filmam eventos que muitas vezes serve como o registro factual da realidade e são expostos para todos (you tube, por exemplo).


Camêras discretas utilizadas para monitorar as ruas: quem observa os que vigiam é uma questão fundamental.





segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A Morte como paradigma estrutural

Para pensar uma filosofia maquínica é necessário sugerir que a Morte tem um papel fundamental porque ela representa, de maneira estritamente biológica (e somente nessa perspectiva podemos compreênder a morte já que somos, em essência, um organismo biológico), o derradeiro final. Filosoficamente devemos minar especulações que possuam qualquer caráter mágico. O que há é uma sucessão de máquinas: máquina biológica, máquina simbólica, máquina química e, algumas vezes, máquina social. Máquinas dependem de circuitos, e eles estão por toda parte: no corpo humano, no campo do desejo, na constituição da psiquê, nas instituições jurídicas etc. Pois bem, se compreendermos com sinceridade que realmente o que há são máquinas de funcionamentos (codificáveis - Gênoma, formação do inconsciente já relativamente codificado, ligação de átomos  e energia codificáveis etc) destituídas de qualquer sentido a priori, a relação de causa e efeito fica cada vez mais clara. Todo sentido, ou tentativa de atribuir um sentido à existência, sempre será uma construção discursiva humana extremamente subjetiva. A única certeza que temos é que as máquinas avariam, ou seja, se desgastam e muitas vezes chegam ao seu final por não ter mais energia.


A Astrofisíca já sabe: O SOL morrerá em alguns bilhões de ano. O fim do planeta terra (se não desenvolvermos tecnologia para sobreviver sem o sol) já está com os dias contados. 



As máquinas chegam ao seu fim. E depois desse fim, não há absolutamente nada - lembremos que a invenção de vida após a morte não passa de uma ficção. Sendo esse fato, o fim do funcionamento de uma máquina,ou seja, sua morte, de uma obviedade gritante, fica impresso e registrado nos nossos mais profundos sentimentos o verdadeiro pavor frente a esse Vazio insuportável. Esse vácuo existêncial também está presente no Universo. Senão vejamos: é certo pelos mais sofisticados cálculos que a probabilidade de um asteróide nesse exato momento estar caminhando em direção a terra (devido a forças do acaso, o meteoro não possui o propósito de destruir a terra obviamente|) é extremamente plausível (compreendendo a infinitude que é o Universo e a quantidade de meteoros que viajam pelo espaço); e esse encontro catástrófico liberaria energia para dizimar toda a vida do planeta. E isso já aconteceu no período jurássico. Não seria uma novidade.

As forças do Acaso: Fim da Humanidade sem qualquer sentido em si. Forças da Natureza, apenas.

A Morte é própria da força da natureza, esse locus onde não subsiste sentido além da sobrevivência. O encontro com essa Verdade crua, nos lança ao Horror do Vazio. Como seres de espécie aptos a ter consciência de seu fim, nós homens, em resposta a esse terror que é a morte, forjamos meios de conviver com ela atribuindo à Morte todo um colorido especial. Desde os primórdios, a maior parte das tribos e a maior parte de nossos ancestrais atribuíram um sentido mágico à Morte. Criamos deuses, criamos histórias e forjamos um sentido. Preencher esse vácuo é essencial para uma boa saúde mental, isto é, somos poupados de grandes reflexões sobre o que é a morte em sua crueza, e contamos com uma sofisticada ilusão consentida e aceita por maior parte da humanidade - a Religião. Preencher esse vácuo é uma das funções da igreja na sua criação de santos e Deus. A morte é a força mais devastadora que nossa psiquê pode encontrar no meio de seu desenvolvimento. Tão devastadora que em sua tentativa de promover uma "paz (IN)terior"consegue se materializar em instituições sociais destinadas a reforçarem o Mito.

A Morte não se manifesta somente como algo que fugimos. Pelo contrário, em alguns indivíduos, a morte é a própria força motora - submetidos à uma Pulsão de Morte, alguns indivíduos tem o papel de reforça-la e sempre nos fazer lembrar de que há uma Pulsão especial, uma força que atraí alguns a ter encontros particularizados com a morte e externalizá-la no próprio corpo - um suicída no caso extremo, um desejo de matar (assassínos), e até mesmo autoflagelações que culminam em risco de vida. As manifestações são múltiplas. Mas é característica fundamental da máquina humana o seu fim. Como de qualquer ser vivo, aliás e até seres inanimados.


O encontro com o Real (Lacaniano): Máquina "avariada" e as entranhas da Natureza. Nada além.

Para ajudar na compreensão dos fenômenos religiosos em geral devemos observar a existência crucial daquilo que sem ele a religião poderia nem existir como a conhecemos, isto é, o SOFRIMENTO. O papel do sofrimento é fundamental porque, além da dor psíquica, padecemos muitas vezes da dor corporal (que pode ser exclusivamente fisiológica ou psicológica que atravessa o corpo e cria-se as famosos sintomas e neuroses psico somáticas). Esse padecimento leva alguns seres humanos a buscar saídas muitas vezes irracionais. Vejamos a história do próprio Cristo: é um percalço de sofrimentos. Há sofrimentos em todas as partes. A maior parte dos encontros entre Jesus e seus fiéis são pautados por conflitos permeados de dor e angústias próprias da miséria da condição humana. Isso explica, em partes, porque os evangélicos necessitam explicar e vivenciar seus sofrimentos dentro de um universo destituído de qualquer garantia de existência, isto é, o universo místico. Muitos esperam a sua cura de um poder maior, invísível e extraordinário. Podemos até dizer que se trata de um tipo de pensamento muito próprio dos nossos antepassados primitivos. Os fiéis, então, depositam suas expectativas em um espaço vazio que se sustenta apenas pelas narrativas biblícas e relatos de outros fiéis que acreditam que foram "abençoados". A fé é um verdadeiro salto no escuro.



A FÉ, UM SALTO NO ESCURO DE UM PENSAMENTO PRIMITIVO



Pensamos, assim, que no campo teórico dos estudos sociais da religião deveria-se levar em consideração o fenômeno do sofrimento como um dos principais pilares que sustenta a existência da Religião. Mas vale uma ressalva: geralmente os fiéis atribuem ao próprio sofrimento sentidos cujas razões desconhecem, isto é, muitas vezes não se sabe do que exatamente se sofre e nem o porquê. Podemos observar que existe, primeiramente, um véu de ignorância por parte dos fiéis. Essa ignorância é um desconhecimento das raízes de seus sofrimentos - nesse caso os mal-estares psíquicos não são explicados no âmbito da psiquê ou dos fenômenos mentais, mas atribuido às forças mágicas. Pelo contrário, os fiéis insistem em causas mágicas e correlações sem qualquer tipo de prova concreta. Já os sofrimentos fisiológicos apesar de atribuirem as causas da dor a um mal funcionamento do corpo humano, ainda assim, os crentes atrelam às explicações médicas fenômenos sobrenaturais. É o caso de um fiel canceroso que se apega ao pensamento mágico para encontrar uma justificativa mística de um desequilíbrio que ocorre na máquina do corpo humano. Importante lembrar que dor psicológica e dor física podem se entrecruzarem: tensões psíquicas influencia o fisiológico e outras vezes tensões fisiológicas comprimem o estado psíquico.

Se o sofrimento advém da instância psíquica ou física ele também advém dos impasses da configuração social estabelecida pelas sociedades humanas. O sofrimento de se estar desempregado, estar sem recursos materiais etc também levam muitos indivíduos à esteira da fé. Mas peguemos um exemplo muito elucidativo que ajuda a entender o porquê dos fiéis atribuírem à Deus certas curas patológicas. Vamos aos fatos: Um evangélico sofre de alguma dor física ou mal estar psíquico. Após passarem pelos especialistas (médicos e funcionários da saúde mental) seus sofrimentos não cessam nem mesmo com remédios sintéticos. Há um conflito psíquico a ser resolvido (depressões, angústias, apatias etc, por exemplo) e esse conflito vai ser resolvido na arena dos templos e casas de oração. E em alguns casos, principalmente no caso dos mais humildes e devotos, algumas vezes o sofrimento é cessado. Ora, o modo como os religiosos resolvem seus conflitos psíquicos\orgânicos é um modo exemplar que pode revelar, por incrível que pareça, um traço presente na História Ocidental e Oriental e que pode representar um mecanismo próprio da psiquê humana em um contexto evolutivo. É fato (e isso é um dogma irrefutável para quem quer pensar com retidão) que não convém, a bem do conhecimento, acreditar que há um Deus que cura. Sendo assim, Deus deve estar morto, como bem disse Nietsche. Retirando qualquer misticismo de cena, o primeiro fato a reconhecer é que há de fato curas. Não podemos desprezar os relatos dos evangélicos quando dizem que "foram curadas por Deus".

Se há então o fenômeno da cura, a quem podemos atribuir esse fato a não ser ao próprio indivíduo que foi curado? Se há uma cura ela ocorre exclusivamente no âmbito psíquico, nos meandros de suas forças já tão conhecidas pelos psicanalistas. Desde conversões histéricas mais extremadas à relações mais sutis, o que temos é um fenômeno de AUTOCURA. Esse processo de auto cura necessita da fé, dos templos (cena) e dos missionários que simbolicamente representam Deus na terra. O que ocorre nos cultos e nas orações é mais uma manipulação no simbólico do sujeito. Uma manipulação, que longe de ser maquiavélica, se dá sob a permissão do próprio sujeito.



FALE COM O APÓSTOLO: MANIPULAÇÃO SIMBÓLICA E SIMBIOSE PSIQUICA NOS PROCESSOS DE "CURA"



A relação do homem religioso com o templo ou com o pastor é de pura significação simbólica. Arranjo simbólico que flutua à medida que os crentes se relacionam com a instituição religiosa e seus representantes. Pode-se sugerir que o inconsciente e suas relações com o mundo mágico, o mundo de deuses, pode ser, em última instância, uma saída do conhecido mecanismo de defesa do inconsciente diante o sofrimento"inexplicável" por parte dos seus fiéis. Há um jogo simbólico capaz de movimentar sentidos, energia psiquíca e, principalmente, um jogo que reconfigura as inúmeras forças mentais por meio de combinações simbólicas que fazem sentido na vida e na particularidade dos fiéis. Seria interessante pensar que a própria religião é uma criação do universo simbólico que reflete na "terrenidade" um impasse existencial maior, a saber, o impasse que todos nós confrontamos com a morte.Voltaremos, outro dia, nessas relações com maior profundidade.



A filosofia maquínica é uma proposta acima de tudo. Por ser uma proposta, ela não tem a obrigação de conter um Sistema acabado e cientificamente "correto" da realidade; ainda que acreditemos na possibilidade de se atingir a coisa-em-si em seu sentido hegeliano. È uma proposta audaciosa, no entanto. Essa proposta se utiliza de conceitos advindos de diversas áreas do saber, mais especificamente, da Psicanálise, da História, da Sociologia, Antropologia e Filosofia - já frisando que não cabe lugar algum para a Metafísica, essa "invenção" que a nosso ver é pura perda de tempo. A filosofia maquínica não está preocupada em manter um rigor epistemológico que tenha como resultado o "abafamento" das idéias. Pelo contrário, os conceitos podem ter uma liberdade em ser citados contando, assim, com a inteligência do leitor e pressupondo que se conheça minimamente os termos utilizados. Estamos mais interessados em criar, imaginar hipóteses e contextualizá-las com exemplos da história e, por quê não, do cotidiano e seus eventos aparentemente banais; desde os eventos mais simplórios, mas reveladores de tendências e narrativas,aos mais extremos. Acreditamos que é nos EXTREMOS que se encontra tudo o que se busca acerca de uma verdadeira origem do "ser" como, por exemplo, a disseminação da prática da "foda de punho". Sendo assim, importante frisar que não é objetivo do blog explicitar conceitos de maneira didática mas utilizá-los com certa margem de liberdade e especulação para, em momentos futuros, servir de base para uma conceituação mais rigorosa. E contando, até mesmo, com a ajuda dos leitores que perdem seu tempo por essas "bandas" virtuais. Estamos mais interessados em imaginar uma construção teórica que agrega conhecimentos de vários saberes, noções de áreas que aparentemente não se se convergem mas que serve de noções e sentimentos "delirantes". O objetivo é lançar idéias ao vento, acreditar que elas circulam e agregam novas idéias, novas observações e caminhos para se pensar sob uma perspectiva séria, cuidadosa e imaginativa.

A filosofia maquínica é uma criação em constante transformação. Apesar do título "máquinico", essa filosofia não se adapta tão bem assim às especulações deleuzianas, apesar de haver certas semelhanças entre alguns conceitos.

A filosofia maquínica parte de alguns pressupostos.

I) Primeiro, é necessário partir de um sentido específico de Homem. A filosofia máquinica parte do princípio de que o homem (a espécie humana) faz parte de uma cadeia evolutiva com contornos Darwinistas. Acreditamos na "animalidade" do homem e que se o mesmo não se comporta como os animais em muitas instâncias da vida é porque o homem está relativamente bem socializado dentro de um elaborado projeto civilizacional, nada além. Não estamos preocupados em defender a idéia de que existe um sentido de evolução - até mesmo porquê tal conceito não existe. Aliás, eles existem na mentalidade antropocêntrica do homem médio. Mas quem deseja realmente pensar em termos honestos, deve admitir de ante-mão que qualquer atribuição evolucionista com contornos culturais deve entender que tais conceitos evolucionistas não passam de juízos de valor. Na verdade o termo "evolução" é carregado de valores morais e subjetivos. Alguns pensam que somos mais evoluídos que os animais e isso nos diferencia de tal modo que a nós, homens, são dadas vantagens que nos colocariam como um ser "especial". Não defendemos essa idéia. Pelo contrário, defendemos que somos animais com capacidades cognitivas mais complexas que os dos nossos ancestrais. Temos a capacidade de linguagem e de símbolizar, mas isso apenas nos coloca como seres dotados de características diferentes em relação a outras características dos animais. Uma diferença radical mas, ainda assim, diferença. Portanto, a filosofia maquínica parte do princípio de que o homem é uma espécie animal (e nesse sentido, ou seja, somos realmente animais diferentes das bactérias, mas muito mais próximo de nossos ancestrais, tais como algumas espécies de macacos). Isso é importante porque não há outras possibilidade ou saídas para uma filosofia maquínica: devemos considerar o homem parte da espécie animal que nada têm de especial a não ser certas singularidades (capacidade cognitiva mais elevada, capacidade de abstração, formação psíquica por vias simbólicas e a consciência-de-si e da morte). Então o primeiro axioma de nossa filosofia é considerar o homem como um bicho (literalmente). Uma espécie animal que como todas as espécies de seres vivos apresenta particularidades e singularidades, mais todas elas calcadas em um substrato biológico.


PARENTES DISTANTES. DARWINISMO E BIOLOGIZAÇÃO DO HOMEM

II) O substrato biológico é importante. Porém, não defendemos a idéia de que os fenômenos socias possam ser explicados por uma lógica fisiológica. Mas, no entanto, podemos recorrer à biologia quando pensamos puramente no funcionamento do corpo humano. Cada orgão possui uma função. O coração, por exemplo, cabe à função de bombear o sangue. Todos os orgãos são inter relacionados e funcionam como uma máquina em seu conjunto. Uma máquina, não tão previsível, mas previsível a ponto de sermos capazes, com a tecnologia existente, de criar bexigas em laboratório e compreender bem o funcionamento e mecanismo dos orgãos no geral e suas patologias. Há, então, um primeiro elemento que se comporta exatamente como uma máquina, a saber, o corpo humano. Essa "impressão", considerar o corpo como uma máquina, faz todo o sentido frente ao desbravamento do Genôma: há um código a ser decifrado. Somos fluxos e máquinas, pois, partimos do pressuposto que há uma lógica subjacente ao funcionamento do corpo e que ela pode ser descoberta em sua plenitude pelo saber científico. A primeira noção de máquina é justificada no âmbito orgânico, químico, físico e biológico. Mas a segunda caracterísitca da máquina humana é ser detentora de um inconsciente também máquinico que pode ser inclusive reduzido a fórmulas "matemáticas". Não é isso que ocorre nos "matemas" lacanianos?

III) Além do biológico, que já comporta uma noção de máquina, também somos formados pela psiquê, ou seja, há um sistema simbólico que se encontra presente na formação do mental e do inconsciente. No entanto, o inconsciente e as formações mentais não devem ser explicados dentro de um paradigma organicionista e biologizante. Longe disso, a psiquê tem sua história e ela é essencialmente simbólica que interage com o mundo social. Porém, apesar da formação mental ser essencialmente simbólica e completamente imprevisível em sua formação, os estudos de Freud e de seu grande precursor Jacques Lacan, desvelaram algumas particularidades de como funciona esse simbólico, isto é, não nos é desconhecido as trajetórias possíveis e existentes da pulsão que auxiliam na formação do inconsciente. Aqui vamos nos desvincular dos autores citados e afirmar que também o inconsciente é uma máquina. Máquina de símbolos, relações, fantasias etc cujo o funcionamento também revela padrões e podem ser codificados. Esse é o segundo axioma de uma filosofía maquínica, a saber, sermos uma máquina abstrata cujo inconsciente está disseminado por todo o aparelho social: na televisão, nas artes, no seio familiar, nas universidades etc. O inconsciente é maquínico e esse conceito de "inconsciente maquínico" nos aproxima da obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Tomaremos liberdade de alterá-lo, reinventá-lo e especular possíveis leituras que pegam de empréstimo aqui e acolá conceitos que ora se apresentam mais acabados, ora se tornam apenas inspiração para o desenvolvimento de novos destinos conceituais. 

III) A filosofia maquínica não permite a autorização para relacionar qualquer explicação calcada em fenômenos sobrenaturais (existência de espíritos ou coisas do gênero); muitos menos explicações que atribuam aos fatos caráter religioso. Não acreditamos na existência de seres mitológicos e isso envolve Deus. Os Mitos têm uma função essencial nas sociedades em geral, mas eles atendem mais a uma demanda psíquíca e social do que qualquer outra coisa. Logo, o ateísmo é fundamental para que consigamos desvelar o funcionamento dos fenômenos psíquicos e sociais. Tarefa difícil, dado que em pleno séculko XXI vemos emergir com toda força as explicações mitológicas e as práticas mísiticas cujo exctase parece retornar aos seus estádios mais primitivos - por exemplo, acreditar em água milagrosa transformada em mágica pelos pastores das igrejas evangélicas. Enfim, descartamos qualquer traço de crendice popular e contatos com divindades.


São três os axiomas: i) o homem é um animal biológico e faz parte de uma espécie natural dentro da cadeia dos animais existentes e fisiológicamente funciona como uma máquina; ii) O incosciente é uma máquina simbólica; iii) Não há espaço para o misticismo de qualquer natureza. Não há uma única prova consistente da existência de Deus ou de alguma força superior que está à olhar para a humanidade. Os fenômenos atribuídos a deuses e santos são facilmente explicados pelo instrumental científico e os relatos de seus defensores não passam de especulações subjetivas ingênuas e pueris. 


Partindo desses axiomas postaremos algumas especulações, mas sempre à partir dos pressupostos mencionados.



A REALIDADE É UMA SUCESSÃO DE EVENTOS SEM QUALQUER SENTIDO EM SI.