domingo, 23 de dezembro de 2012

O Apocalipse Real - especulações de um futuro sombrio


Frente às inúmeras "teorias" que predizem o fim do mundo, como pensar um futuro realmente catastrófico e, o que é mais importante, possível de acontecer - tarefa essa inglória, afinal exercícios de previsões geralmente ignoram fatores e deixam de levar em conta uma série de fenômenos. Bem, pensando sobre isso me vem à mente um cenário possível. Primeiramente ele se dirige à idéia de precarização simbólica.

Frente ao modo de sociabilidade do neocapitalismo que i) coloca o individualismo exarcebado em primeiro lugar; ii) hipervaloriza o lado material, o consumo e estimula uma vida pautada na aquisição de objetos materias (o que mostra uma pobreza "espiritual" e "de sentido"); iii) estimula o gozo em excesso ("aproveite hoje, já"); iv) alheiamento de uma massa que entregou sua vida aos governantes sem compreender direito as verdadeiras regras do jogo forjadas por uma elite que as mantèm a qualquer preço; v) O avanço da ciência que evidencia cada vez mais a fragilidade da condição humana e do planeta terra em geral; podemos prever um aumento da sensação de insegurança e temor diante dos conflitos do século XXI.

Esse temor (que aumenta com a precarização do Welfare State) aumenta as crises de ansiedade, pânico e conflitos psíquicos e lançam uma parcela considerável de indivíduos no mundo da medicalização compulsória advindo da saúde mental. No entanto, não serão todos que poderão ser contidos por meio de drogas e medicamentos. Alguns desenvolverão modos de dar vazão aos conflitos psíquicos de maneira discreta e silenciosa, no entanto, à margem da Lei (no sentido jurídico e simbólico). Nesse desenvolvimento de uma massa simbolicamente precarizada se tornará cada vez mais difícil manter a saúde mental, o que abrirá novos espaços para o surgimento de psicoses e modos de dar vazão à loucura propriamente dita. Sendo assim, aumentará i) o número de assassinatos, principalmente decorrentes do surgimento de seitas que terão como fundamento sacrifícios humanos e animais, tal como na idade média; ii) práticas sexuais desenfreadas e cada vez mais voltadas à pulsão de morte (por exemplo, na Inglaterra festas denominadas "roletas russas" promovem orgias sem preservativos onde existem portadores de HIV que tem como gozo "passar" o vírus adiante a uma platéia ciente dos riscos - chama-se "the gif" ou "o presente" esse flertar com o perigo, uma vez que todos sabem que existem pessoas contaminadas na "brincadeira" e é justamente esse risco que excita e é a razão de ser dessas orgias); iii) estímulo ao incesto, uma vez que tabus tendem a ser dissipados em uma sociedade permissiva tal como a sociedade neocapitalista; iv) o retorno de cultos religiosos primitivos próprios das sociedades arcáicas - basta pensar nos evangélicos de hoje e seu primitivismo de pensamento mágico (águas que curam, pastores com poderes sobrenaturais etc) v) o surgimento de uma razão perversa que construirá porões e fortalezas escondidas da lei para práticas socialmente não permitidas; vi) surgimento de seitas com adeptos que pregarão o fim dos tempos e outros devaneios temerosos, assim como modos de vida apartados o máximo possível do Estado concebido tradicionalmente. Na verdade isso já ocorre - vide os Amish. vii) retrocesso dos direitos humanos.

Nota-se que o grande desafio do século XXI (além dos já sabidos tais como aquecimento global, exclusão social, exploração do trabalhador, desemprego, crise econômica etc) se concentrará nos modo de desenvolvimentos psiquícos completamente desenfreados e inéditos.Defendemos o aparecimento de disturbíos inéditos e que muito se assemelha aos inícios do tempo. Nota-se um prazer enlouquecido na agressão e extermínio do semelhante.

Frente esse cenário teremos espécies humanas que desenvolverão modos de praticar seus atos desenfreados por meio de elaboradas estratégias inéditas de perversão (a sexual é apenas uma delas). A crueldade será o principal efeito dessa precarização simbólica. Surgirá então um movimento reacionário que desesperadamente tenderá a conter esse fluxo de loucura que nos aguarda diante o século XXI. O desejo pelo fascismo voltará à tona e emergirá relações humanas pautadas em células ao invés de classes sociais. Os indivíduos se organizarão juntos aos seus semelhantes. Bairros de gays, bairros de evangélicos, bairros de incestuosos, bairros de drogados, bairros de fascistas etc. Essa organização em células se comunicará e muitos tenderão a voltar a usar as leis de maneira autônoma e desvinculada do Estado. Por exemplo, religiosos fervorosos formarão células de extermínio (assassinatos) a médicos pró-aborto. Tudo será feito à margem do Estado, secretamente e teremos novas formas de ameaças. Defender idéias será algo perigoso e serão as células que irão corroer as bases da democracia.

Pois bem, essas idéias apenas são um esboço de algo mais sério e complexo que temos observado surgir aos poucos a partir de sintomas e neuroses próprias do século. O termômetro se encontra nos casos esparsos de canibalismo (esse a nosso ver é um dos temores que surgirão com o passar das décadas) e chacinas em massa. O crime organizado se fortalecerá, pois, terá mais recursos financeiros. Esse mundo desenfreado pode ser visto na crise financeira de 2008. Pouco se disse, mas os lucros advindos dos ganhos com as bolhas especulativas no mercado financeiro serviram para aumentar os gozos dos que enriqueceram (Há uma política do Gozo em voga): prostituição, sexo, drogas e consumo desenfreado (pessoas com dezenas de mansões, iates, carros conversíveis, jóias etc). Esses foram os efeitos do enriquecimento de grande parcela da população de Wall Streat.




Loucura e psicopatias: A cara do Neocapitalismo. O verdadeiro apocalipse.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Sobre os evangélicos


A Constituição garante: liberdade de crença e culto. Pois bem, ninguém impede os evangélicos de manifestarem sua adoração a Deus, ainda bem. O que seria desses instintos que clamam por uma forma. Deus dá à forma aquilo que ela necessita, isto é, uma noção de princípio, meio e fim que a mente humana não consegue suportar ficar sem por muito tempo. Os evangélicos são temem o acaso. Precisam de uma história que os convença de que há sentido. Na verdade, demandam o sentido que a vida em si não possui e nem pode fornecer a ninguém. Os evangélicos temem a natureza, pois, somente ela tem a resposta que eles temem: "não há nada além, apenas a natureza agindo baseada numa aparente ordem que nós atribuímos a ela"." O Fim. Os evangélicos temem o fim. Para tanto criaram uma história de lutas, batalhas e sentido. Forjaram práticas de sociabilidade que os permitissem conviver em harmonia (sempre aparente) com outros seres da mesma éspecie psicológica que também creem no mesmo conto. Mais não só. Insatisfeitos com o mundo também pregam que a existência deve ser corretamente vivida. Esse sentido de "correção" se manifesta em algumas práticas, tal como louvar a Deus, evitar o sexo antes do casamento, ler pedações da biblía etc. Vamos aos fatos:

1 - A pobreza e a privação material lançam muitos evangélicos ( a grande maioria proveem de classe média baixa, a pobres) ao desespero. O Estado pouco o ampara. Assim como ampara mal a todos os necessitados. Portanto, razão número um é a privação material e o desamparo. Se bem que muitos andam construindo laços de sociabilidade propício aos negócios. As indulgências da vulgaridade. Muitos abrem pequenos comércios cujo lucro, longe de vir como uma benção de Deus, vem de seus próprios frequentadores. Por exemplo, em padaria de crentes, atraem fregueses crentes. E por aí vai. Sem contar o enriquecimento de pastores por meio de vendas de livrinhos, cds etc. É a ética protestante e o espiríto do capitalismo em sua versão mais óbvia (claro dadas as modificações históricas e ideológicas). Weber seria mais sofisticado.

2 - A loucura da lógica capitalística - livre mercado, individualização, risco etc - levam muitos dos evangélicos a terem dificuldades de lidar com os próprios conflitos emocionais. Quando bebem, bebem demais. Quando fazem sexo, faz-se demais. Quando se drogam, não conseguem parar. Em suma, fazem dos fatos simples da vida um verdadeiro tabu e mal conseguem lidar com os próprios instintos. Por isso quando se voltam à Deus, o sexo é algo tão complicado. Os valores que cultivam são reflexos dos próprios sintomas. Neuroses Coletivas. O pavor envagélico pelo homossexual refletem suas próprias neuroses e patologias. Estão preso à fixa idéia de sexo como reprodução. Um retorno aos séculos passados em termos de mentalidade e estilo de vida.

3 - Estão aprendendo o jogo democrático na política. Tentar impor seus valores por vias do Congresso Nacional é um verdadeiro perigo à espreita que degola o Estado Laico - valor que desconhecem e essencial para a convivência mais racional dos homens entre si. Os valores evangélicos quando são impostos, traz à lembrança o retrocesso e o primitivismo. O pensamento religioso no geral é primitivo. Ignoram relações causais lógicas e coerentes (acontecimentos banais são explicados por forças cósmicas). Tudo passa a ser envolto por uma mística precária e miserável, que não se sustenta quando desvelada a fundo.  

4 - Por fim, mas não somente, possuem dificuldades de compreender o mundo em termos racionais. Entendem a depredação da natureza pela máquina capitalista que tem sua própria lógica de auto destruição como sinais de um apocalipse. Não conseguem entender a plasticidade dos instintos, o jogo verdadeiro que se encontra sob suas próprias experiências. Escamoteiam enfim o próprio gozo correndo atrás de um lugar seguro para se gozar, no altar. Assim se goza melhor, com o eterno pai perdido. Tristes fins para o futuro de uma ilusão, como bem observou Freud.



A crença em uma mística com fundamentos frágeis: neurose e neocapitalismo.

A ENERGIA






Já há muito tempo se observou que no final, a última palavra em termos de formação da psiquê, se tratava de uma ECONOMIA. A energia investida em objetos - desde a escolha dos objetos parciais ao puro fetiche que torna um objeto "dotado" de poderes "mágicos" (uma meia de nailon, por exemplo) - a "economia psíquica", era determinante para a lógica do inconsciente. Portanto, nada mais pertinente falar da energia. A energia é algo de difícil acesso por meio das palavras. Reich, tentou. Jung e Marcuse também. Se falou, outrora, em Nirvana. No entanto, ela encontra-se presente no respirar, no metabolismo, nas partículas quânticas e nos átomos. Somo formados de átomos, células e funcionamentos que despendem de energia, isso é fato! Precisamos nos alimentar para adquirir energia. Mas não é dessa energia que é formado a estrutura psíquica. E energia do qual falamos trata-se de um investimento em uma cena, em múltiplas cenas, em objetos - em uma forma de entender inconsciente tanto como teatro e suas representações ou então como pura usina de fabricação - em cenários, em acontecimentos. Fabricação, produção incessante. A energia continua a pulsar. Mas não é só. Ela precisa ser descarregada de tempos em tempos. Vamos aos fatos: o aumento da criminalidade por motivos torpos. A banalidade do ato é contra investido de uma brutalidade atroz, a descarga de energia violenta por motivos fúteis. Trata-se de um acaso infeliz e uma briga de trânsito que pode acabar em tragédia. A energia precisa descarregar e quanto mais precarizado simbolicamente está o sujeito, mais a descarga toma formas inusitadas.  


O economista e funcionário do Banco Central (Ricardo Neis) que descarregou seu pé no acelarador e atropelou inúmeros ciclistas sabe bem o quanto que a energia quando descarrega não escolhe lugar, basta uma fagulha para que seja desperado o ímpeto da energia. O capitalismo sobrevive como modo de organização da vida social, porque conseguiu de algum modo ordenar essa energia para seus fins. O trabalho, por exemplo. Uma infindável gama de energia é canalizado na produção de bens, serviços, idéias. O Estado precisa canalizar a energia de seus funcionários públicos. Para tanto, não se deve chegar embriagado no serviço, uma vez que a potencialidade (a força, a energia) se encontra debilitada e dispersa. Quanto de energia é depositado na socialização das crianças. Essas possuem uma energia que é essencialmente, em sua origem psicosexual, perversa por natureza. A energia perversa. Enfim, é a energia que move o mundo, que é em si, também energia. Energia solar. O presidente Shoeber, como observou Deleuze, tina um cú solar, um anús solar, era um psicótico bem sucedido, em suma.



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

As facetas do Gozo

A busca do gozo pode ser mediado pela razão, mas apenas para aqueles que conseguem sublimar relativamente bem. Se deseja gozar, mas em quais modos de gozo se deseja gozar? Há inúmeros objetos a que o gozo almeja. Ser penetrado, penetrar, espancar, ser espancado, comer semêm, ser provedor de semêm; ser ou estar em uma orgia, apenas assistir a uma orgia (voyerismo), a parte pênis-destacado do resto. Como bem observou Zizek, é facilmente possível estar em uma orgia, desde que se mantenha a imagem da mãe "intocada" ou "mistificada". O falo! Os excrementos também estão embutidos nessa lógica-do-gozo: urinar e ser urinado, defecar e ser defecado (cropofagia). Homens com mulheres, homens com homens e mulheres com mulheres, em fim, seres humanos com animais (zoofilia) e, por fim, seres humanos com pedaços inanimados (vegetais, bonecas de plástico, pênis de borracha, vaginas de mentira etc. Inúmeras são as formas e o circuito simbólico posto em jogo pelas facetas do gozo. A precarização simbólica não se contenta apenas em retornar aos excrementos, aos signos primários da formação psicossexual - a precarização simbólica é um retorno ao "mais além", o limite é a vida.  Se o capitalismo tem como imperativo o gozar, é de compreender que uma parcela considerável da população se defina simplesmente por aquilo que se goza: "não sou uma mulher, sou uma máquina que deseja ser penetrada, por dois, três pênis ao mesmo tempo". Alguns desejam mais. A Necrofilia é o encontro de impossíveis (onde a vitalidade - fazer sexo é uma forma de manifestar essa vitalidade - de um, se encontra com a finitude, a morte de outro. O corpo morto, gélido, sem vida, é objeto de desejo. Um auxiliar de acção educativa recentemente preso pela polícia federal, tinha uma colecção de milhares de fotos e filmes com cenas de pornografia com bebês, alguns com apenas dois anos de idade. O seu rasto foi apanhado numa operação desenvolvida no estrangeiro e a Polícia Judiciária (PJ) do Porto aplicou-lhe o golpe final. Foi detido anteontem e já está em prisão preventiva, por ordem de um juiz. O suspeito, de 60 anos, a trabalhar na Universidade Portucalense, no Porto, fazia parte de um circuito de intercâmbio de pornografia com menores que funcionava através da Internet. O esquema tinha ramificações em diversos países, um pouco por todo o Mundo.Práticas mais ou menos socialmente aceitas. È necessário padronizar essa "metastáse do gozo" e tentar dar forma aos objetos parciais que deslizam no imaginário simbólico. "Em toda parte são máquinas com seus acoplamentos e conexões. Uma máquina órgão para uma máquina energia, sempre fluxos e cortes. Há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que lhe é ligada, operando um corte. O desejo não cessa de efetuar acoplamentos de fluxos contínuos e de objetos parciais, essencialmente fragmentários e fragmentados.O desejo faz escorrer, escorre e corta". (DELEUZE e GUATTARI, O Anti-Édipo).



Seios e vaginas, objetos de desejo minimamente coordenado.

Imaginemos um processo de precarização simbólica, isto é, quanto mais precarizada a psiquê, mais concreto, mais real sera a "passagem ao ato". Em um telejornal é noticiado um acontecimento curioso: um homem, por volta dos seus trinta anos de idade, não aceita o término da relação amorosa. Não elabora. Não assimila. E a única saída encontrada para lidar com a situação foi literalmente abrir a cabeça da ex parceira e devorar seu cérebro. Precarização simbólica. Um homem foi detido na Flórida sob a acusação de ter matado uma pessoa e comido um olho e parte do cérebro de sua vítima: seu nome é Tyree Lincoln Smith, de 35 anos. A precarização simbólica tem como característica fundante a concretude, haja vista que o que fica prejudicado é a capacidade de abstração: "Não entendo o que se passa na cabeça de minha parceira, preciso abrir e comer o que há dentro. Somente assim consigo "digerir" o término de uma relação.". Mas não é só. José Vicente Matias, conhecido como "Corumbá", "Magrão", "Pedro" e "Agripino", disse ontem, durante a reconstituição do assassinato da turista espanhola Nuria Fernandez Collada, 27 anos, que comeu parte de seu cérebro. Ele também confirmou que bebeu seu sangue durante o "ritual", que incluia uma fogueira e incensos. O assassino disse que fez sexo com a vítima várias vezes antes de assassiná-la. Um devir-canibal. Uma mente em curto-circuito? Nada disso. È apenas um dos destinos do instinto (ou melhor, pulsão). Os casos não são tão isolados. Insurge aos poucos e sorrateiramente novas formas de seres humanos, uma variação da própria éspecie humana. Desconhecidos do passado? Também não. As práticas extremas talvez tenha sido comum em um estado de natureza, onde os humanos ainda não haviam criado instituições para moldar esse instinto violento. Em um estado de natureza não há que se pensar em "família", "casamento", "propriedade" e muito menos em "Estado" regulando as relações permanecendo ora acima e a margem dessas relações, ora intervindo em nome do interesse coletivo. O desejo de comer o outro é real, e não apenas sexual ("comer" no sentido de transar). O furor não tem limites e não consegue enxergar limites a não ser que as instituições coloquem "de fora", externamente, um limite para o instinto. Ora usamos o termo pulsão, ora o termo instinto. A pulsão é o nome que o instinto recebe em uma sociedade civilizada. Claro, há o elemento simbólico que nos diferencia dos animais. Porém, esse aspecto simbólico não freia certas formas de se atender aos imperativos do gozo mortífero; esse gozo "mortífero" tende a se concretizar mais e mais em uma sociedade capitalística. O imperativo do individualismo e da propriedade esvaziaram os sentidos e empobrecem cotidianamente a mentalidade psíquica. O dinheiro e as fezes! já havia observado Freud há alguns séculos atrás.





terça-feira, 27 de novembro de 2012

É NOS EXTREMOS que se encontra o àpice da verdadeira materialização do poço sem fundo que é o inconsciente irracional. Esse inconsciente, do qual mencionamos aqui, é um inconsciente muito específico, sendo melhor começar dizendo o que esse inconsciente não é. Ele não atende às demandas Freudianas clássicas. Não é o inconsciente do Édipo, esse é apenas um certo devir de muitos outros édipos, assim como, "há mais de um lobo" assim deduziu Deleuze. As múltiplas neuroses sustentadas ainda pelo "aparelho lacaniano" em suas estruturas mais íntimas circulam e, para a sorte dois psicanalista, ainda vai bem, obrigado! O que seria a fonte de renda dos profissionais da saúde mental se ainda não fosse pelo Real (indubitavelmente um conceito lacaniano fundamental). Mas ainda, não é desse inconsciente que estamos falando. Nos aproximamos então das "máquinas desejantes" e sim, é um inconsciente mais próximo do que mencionamos aqui. Mas voltemos aos Extremos. Nos extremos teríamos a aguçada percepção do que seria uma ação limite para o inconsciente, seria aquele ato que rompe com a superfície LITERALMENTE! Vamos a um exemplo prático: imagenemos a violência (consentida, sempre) do ato de um verdadeiro "Fist-Fuck", ou "foda de punho". 

A Foda de Punho de que falamos não é tão pueril quanto essa. Falamos de buracos muitos maiores, é necessário mais carne a ser exposta. A nossa foda de punho vai além, ela atenderia dois limites: o que deseja ser perfurado (o passivo) e aquele que vai atrás das entranhas LITERALMENTE. No encontro desses dois pólos Extremos, o limite é literalmente a vida. Parece demais? Então lembremos do caso de Armin Weiwes, mais conhecido como o "canibal de Rotemburgo. O que queria comer e o que queria "ser comido"(literalmente, pois, estamos falando de um devir-canibal). 

Esse inconsciente então responde às demandas do Outro. Não tem censuras, ou melhor há a censura quando se chega a um Limite, no qual é melhor não parar, mas devido a uma série de imperativos (A "Lei" lacaniana num nível, as Igrejas em outro. O Estado em mais outro nível), se para! A questão é a seguinte: em uma sociedade (a nossa) em que há duas forças extremamente visíveis, a manifestação dos extremos de um lado, e tentativas de "contenção" ora mais, ora menos visíveis, do outro lado, temos a seguinte questão: como capturar àquilo que escapa? O inconsciente do qual falamos é "para além do princípio do prazer". Ele é máquinico, isso é certo. Ele é apto a formar combinações das mais variadas possíveis (numa lógica de paradoxos); uma combinação do tipo "mamãe (mais poderiamos começar por outra coisa qualquer) - televisão - cachorro - masoquismo". Não importa quantas combinações pensamos, à nível primário de inconsciente só poderia ser algo nesses termos. Ele é uma máquina respondendo desde cedo à toda uma gama de outras máquinas; "a máquina família", a "máquina desejo da mamãe", e assim sucessivamente. É deste tipo de inconsciente que falamos mais explicitamente. Uma mística de semiótica. E claro, a máquina capitalista regulando uma fonte inesgotável de plásticas pulsões, que necessitam serem de algum modo padronizadas, "normalizadas" até para que fosse possível a reprodução biológica. Claro, que isso não melhora em nada. Já mostrou Freud em O mal estar civilizacional, que a normatização tem um altíssimo preço. Mais não é o assunto aqui. Voltemos então inconsciente e a importância em se observar os Extremos. Nos extremos está tudo aquilo que "escapa" muito mais do que no neurótico e seus infindáveis dilemas "burguêses". Esse algo que escapa tem no limite da lei (tal como no Direito Civil, e não como "limite" lacaniano) àquilo que o aguarda: a retirada do convívio humano, para segurança Pública. No entanto, e quando esse "para-além-do-limite" é concedido entre às partes?


Haverá Liberdade para esse estranho inconsciente do século XXI? Não há que se permitir ou não, já está dado. A harmonia do desejo-do-outro (seja qual for, sem restrições) faz parte do projeto Capitalístico em seu cerne crucial: a Individualidade na ordem Liberal.



O mais importante do caso de Armin Weiwes, foi o fato de haver uma conscessão. A máquina-desejante que necessitou (esse é o termo, é a descarga enérgica, o ponto final da "pulsão de morte"que clama pela descarga) que o canibalismo fosse práticado. Estamos falando do ápice da realização do individualismo que coloca em cheque o ponto nevrálgico da Democracia: a Liberdade do Indíviduo e todo esse sistema enlouquecido que é a Liberdade. É toda a realização de Adam Smith e do próprio Direito Contitucional. A tal dá liberdade. E a liberdade nos Extremos? Temos duas saídas aqui: ou elaboraremos melhor novas  formas de se lidar com o devir-do-desejo -que-vem (próprio de um neocapitalismo, que um dia teorizaremos) ou iremos criar uma máquina de punição para frear essa subjetividade-por-vir?E os extremos são reveladores porque eles são simplesmente a materialização de uma ordem-outra de subjetividade, que de algum modo está presente em todos os indivíduos, mas que foram mais "bem sucedidas" em evitar de ultrapassar à superfície, para alguns.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A negação Ontológica


A negação ontológica
se desdobra na generalização das relações coisificadas entre os homens, buscando atender o imperativo da lógica mercadoria sobre todas as outras lógicas presentes nas relações humanas. Porém, essa negação ontológica é mais formal do que real. As ações dos indivíduos são detentoras de lógicas heterogêneas e lógicas-outras de ação que remetem a diversas lógicas do sistema social para além da esfera do trabalho. Deve-se ter em mente as dificuldades em considerar a existência entre uma adequação absoluta do mundo objetivo e do subjetivo e voltar o enfoque para um entendimento dialético entre estruturas sociais e subjetividade em sua totalidade. A “dessubjetivação”, pensada nesses termos, é resultado de uma “desefetivação” e sua expansão lógica de coisificação é fundamental para a reprodução do capitalismo em sua faceta exploratória e depreciativa do homem em seu sentido genérico. Essa “coisificação” da subjetividade por meio de intensos processos de captura e, portanto, de dessubjetivação, é o espelho de uma subjetividade privatizada e contrapartida da transformação do homem em uma mercadoria como outra qualquer uma vez que o mesmo faz parte da ciranda das equivalências generalizadas da forma mercadoria. Silveira define de modo sucinto o sujeitar do trabalhador: Como coisa, a natureza não é objeto para o homem, no sentido de que não resulta da atividade pratica de um sujeito. Por conseguinte, mesmo sendo constituída como coisa na historia, isto é, pelo homem ela é vivenciada praticamente de uma forma abstrata, como se fosse dotada de poder e de autonomia próprios (essa é precisamente uma das dimensões do estranhamento). E paradoxalmente é como se a coisa encarnada nas diversas formas em que é capaz de metamorfosear-se, em capital, em valor de troca (...) é que pusesse sujeitos: os sujeitos como postos pela coisa, isto é, sujeitados.

O produto do trabalho, ao entrar na ciranda da troca capitalista, já não mais diz respeito ao trabalhador que a produziu, uma vez que, por equivalência generalizada, ele mesmo é uma mercadoria tal como o objeto estranhado. À necessidade de objetivar a vida, de construir e reproduzir a realidade material por meio de relações sociais específicas é atribuída um elemento indispensável e irredutível para que essas mesmas necessidades possam ser efetivadas: a presença do próprio homem. É a impossibilidade, ao menos no presente, da realização da idealidade do capitalismo em não mais necessitar dos aparelhos de dominação para impor sua ordem - uma vez que do homem sempre necessitará – é que surge a necessidade de uma captura que mantenha o trabalhador no mundo estranhado. O corpo dócil é extensão de uma dessubjetivação em ação cujo agenciamento da subjetividade visa à conformação do trabalhador por meio de uma manipulação da subjetividade, direcionando-a ao atendimento dos desejos irracionais da expansão capitalista. A “nova’ subjetividade deve ser não violenta e resignada e o “novo” homem deve estar imerso por inteiro na cotidianidade naturalizada cujas capacidades criadoras, produtivas e cognitivas estão homogeneizadas em função do capital. A venda da força de trabalho por um salário se estende à “venda” da autonomia subjetiva do trabalhador - irônica e perversamente uma venda sem contrapartida salarial, haja vista, que o processo de dessubjetivação é parte de um processo de captura da subjetividade do trabalhador explorado sem que o mesmo tenha consciência da violência a que está exposto.

No termo
captura se encontra inclusa, em um dos seus sentidos, uma ausência de autonomia e liberdade remetendo a uma idéia de expropriação indevida. Não se precisa capturar algo que se possui. À captura é dada a função, junto ao fenômeno da alienação e da fetichização social, de manter atuante a condição de proletariedade e a alienação dos meios de produção. A forma estranhada pressupõe também uma exploração corporal, isto é, uma exploração marcada no corpo dos destituídos dos meios de produção, cuja subjetividade é o nexo que permite a esse corpo estabelecer um vínculo psicofísico com as relações de produção. O fenômeno do processo de dessubjetivação atende os requisitos, para uma compreensão analítica, de método psicossocial, cuja fronteira nem sempre é nítida e se dá de modo dialético entre as instâncias objetivas do social e subjetivas do individuo em sociedade. No entanto, se parte da subjetividade é constituída na relação entre o homem e seu produto de trabalho, não só os objetos entram na lógica da coisificação, mas também as relações que os homens estabelecem entre si passam a atender aos imperativos da coisificação e, dentre eles, à coisificação da relação entre homem e produto de seu trabalho, portanto, de uma subjetividade ontologicamente considerada. É sugerido pensar a dessubjetivação como uma extensão do mundo objetivado em uma relação estranhada: A dessubjetivação do trabalho é um processo de negação do elemento subjetivo; pelo processo de dessubjetivação o trabalhador é transformado de sujeito em coisa. Se essa transformação já é dada pela simples venda da força de trabalho, seu caráter é aprofundado na medida em que o trabalhador se torna um objeto manipulável pela ciência. Assim, a dessubjetivação do trabalho torna a atividade do trabalhador algo em que esse se vê negado como sujeito. Através da dessubjetivação as potencialidades subjetivas do trabalhador se apresentam como independentes e hostis a ele, como pertencentes a um outro. A dessubjetivação reforça o caráter hostil e estranho que o processo de trabalho tem na produção capitalista ao reduzir os elementos subjetivos ao estatuto de coisa.


 
O Trabalhador como Coisa: a velha alienação e a metamorfose do trabalhador.

domingo, 18 de novembro de 2012

Rompendo com as dicotomias maniqueístas, é imposto como desafio refletir acerca da subjetividade e da dessubjetivação considerando suas relações com o capital sem perder de vista três horizontes fundamentais:

i) o capital para se realizar por meio dos homens atuaria mediante um processo de dessubjetivação; no extremo, 
o capital levado a uma expansão irrestrita correspondente a uma dessubjetivação completa do indivíduo culminando na desumanização do homem

ii) os processos de formação da subjetividade do trabalhador estão vinculados ao significado da centralidade ontológica da categoria trabalho. A subjetividade é considerada intrinsecamente vinculada ao “(...) processo da práxis humana do trabalho e do processo de objetivação/ exteriorização do homem como ser genérico. O desafio é vincular uma compreensão ontológica do ser social – ser cuja formação necessariamente é atrelada à categoria trabalho - a uma teoria da subjetividade humana mediada pela forma social do capital; Esse processo equivale a refletir acerca do desdobramento categorial do ser social enquanto uma esfera ontológica específica cujas relações sociais derivadas da esfera econômica são condicionante, mas jamais determinantes;

iii) A dessubjetivação deve ser compreendida como o alvo da captura da subjetividade visando reduzir o trabalhador ao estatuto de coisa. Estatuto esse potencializado pela coisificação das relações sociais instituídas tendo nos valores-fetiches o braço direito para o exercício de dominação do capital;

A precarização do trabalhador é um fênomeno interessante

"A dessubjetivação do trabalho é um processo de negação do elemento subjetivo; pelo processo de dessubjetivação o trabalhador é transformado de sujeito em coisa. Se essa transformação já é dada pela simples venda da força de trabalho, seu caráter é aprofundado na medida em que o trabalhador se torna um objeto manipulável pela ciência. Assim, a dessubjetivação do trabalho torna a atividade do trabalhador algo em que esse se vê negado como sujeito. Através da dessubjetivação
as potencialidades subjetivas do trabalhador se apresentam como independentes e hostis a ele, como pertencentes a um outro. A dessubjetivação reforça o caráter hostil e estranho que o processo de trabalho tem na produção capitalista ao reduzir os elementos subjetivos ao estatuto de coisa".




O Homem-trabalhador-coisa em suas repetições... função social ausente de qualquer traço de função cognitiva apta a desenvolver tarefas de outra complexidade que não a misera função que desempenham... Aqui um exemplo do empobrecimento simbólico que faz parte, a nosso ver, de uma consequencia cruel de uma luta de classes que predomina em qualquer sociedade que cultive a diferença. A ausência de funções intelectuais de média complexidade e a repetição maquínica da função apontam a alienação como consequência última da ilusão social.



Como coisa, a natureza não é objeto para o homem, no sentido de que não resulta da atividade pratica de um sujeito. Por conseguinte, mesmo sendo constituída como coisa na historia, isto é, pelo homem ela é vivenciada praticamente de uma forma abstrata, como se fosse dotada de poder e de autonomia próprios (essa é precisamente uma das dimensões do estranhamento). E paradoxalmente é como se a coisa encarnada nas diversas formas em que é capaz de metamorfosear-se, em capital, em valor de troca (...) é que pusesse sujeitos: os sujeitos como postos pela coisa, isto é, sujeitados.

sábado, 17 de novembro de 2012


Sobre o inconsciente e suas possibilidades.

Meditando sobre o inconsciente, temos algumas escolas que tratam da matéria de maneiras diferenciadas. A escola de Winnecot, por exemplo. Mas pensamos que é nas leituras da obra do próprio Freud, Lacan e Deleuze que podemos especular o que seria um inconsciente que atendesse, sem exceção, o paradigma da História. Ou seja, se tudo é cultura e história, então o inconsciente também o será. Importante ressaltar que nem Freud (1927; 1930; 1939), estudioso do psiquismo humano, desconsidera a sociedade em suas reflexões. O inconsciente freudiano é pensado em termos de uma relação social tida por Freud como primária, nuclear e, afirma-se socialmente constituída: não se trata de uma família tomada em universalidade, mas a família burguesa. Portanto, o “mapeamento” do inconsciente freudiano deve ser entendido como um esforço para desvelar o funcionamento de um inconsciente burguês não universalizado em categorias substancializadas.Acertadamente “
a psicanálise de Freud é a economia política da subjetividade do homem burguês”. Ao buscar escapar de compreensões que pouco auxiliam no entendimento da realidade em sua totalidade, considera-se os processos de formação da subjetividade vinculados tanto aos sistemas sociais como também ao campo do desejo. Afirma-se que a subjetividade acompanha as modificações políticas, econômicas, históricas e socioculturais. Ainda que se possa concordar que, ao nível inconsciente, vincula-se a reformulação do cogito cartesiano por Lacan "penso onde não sou" e "sou onde não penso", recusa-se a perspectiva de que a subjetividade seja reduzida a um fenômeno de natureza exclusivamente irracional evitando, assim, destituir a subjetividade e, portanto, o homem, de sua potência transformadora das condições objetivas da vida social. Como colocado por Marx “na medida em que reconhecemos a natureza como algo racional, desaparece a nossa dependência dela”. O entendimento da realidade e do homem não pode ser reduzido às projeções de fantasias edipianas irracionais incapazes de abandoná-lo. Análise essa que delimita o real a uma perspectiva particular do simbólico humano, do desejo e das idiossincrasias pessoais. A resistência a essas perspectivas reducionistas busca atentar para as deficiências em considerar a formação da subjetividade tendo como mote referencial o indivíduo ontologicamente isolado. Assim considerado, o indivíduo é entendido como destituído das capacidades e potencialidades de fazer seu próprio destino, haja vista, que a irracionalidade e o inconsciente se tornam imperativos e, por conseguinte, furta do indivíduo a autonomia de se fazer consciente no processo sócio - histórico de modo legitimo. Sugere-se que se trata de uma problemática que deve ser revisitada à luz das descobertas em outros campos das ciências sociais. Por conveniência, segue-se aqui a colocação teórico– formal de Násio (1993) de que o inconsciente só existe no set analítico. Por outro lado, o referencial psicanalítico evidencia uma mediação – com ênfase na mediação materna – entre indivíduo e mundo exterior que não deve ser ignorada nos estudos da subjetividade. Há ai uma interiorização-objetivação-exteriorização,diversa, mas representativa da relação sujeito – objeto fundamental para pensar a subjetividade em sua totalidade. Pensar a subjetividade sem considerar as relações de troca e as mediações simbólicas presentes na relação entre indivíduos e instituições reduzindo a subjetividade apenas às condições objetivas não é suficiente para compreender as relações ora mais, ora menos consciente das relações estabelecidas entre o indivíduo e o mundo.








O Grande-Outro lacaniano, é realmente a Matrix do século XXI
É nele que se encontra muitas das respostas para o desastre civilizacional que estamos acometidos todos os dias e em todos os tempos. A sociedade capitalista tem um trunfo em relação a esse inconsciente: ela consegue dirigir as pulsões e mantê-las razoavelmente sob controle. Desde que não reprima os estranhas formas de sexualizar e de se relacionar dos indivíduos pós-modernos. A questão crucial é: como "entrojetar" um indíviduo na loucura do cotidiano e mantê-lo funcionando psiquicamente bem? A medicalização do mundo e seu entorpecimento é a resposta desse fracasso civilizacional.
John B. Watson sabia exatamente o que estava fazendo com sua behaviórica e esta é reveladora de um sintoma próprio da pós-modernidade sendo o espetáculo encenado a céu aberto. Para analisar esse fenômeno espectral sem muita dificuldade, o método consiste em operar, ou seja, por em prática, os ensinamentos deleuzianos como ferramenta complementar. O horror no admirável mundo novo parece compatível com o experimento Kandinsky-Klee:

“Um historiador da arte espanhol descobriu o primeiro uso da arte moderna como forma deliberada de tortura: Kandinsky e Klee, assim como Bunuel e Dali, inspiraram uma série de celas secretas e centros de tortura construídos em Barcelona em 1938, obra do anarquista francês Alphonse Laurencic (de sobrenome esloveno!), que inventou um tipo de tortura “psicotécnica”: ele criou as chamadas “celas coloridas” como contribuição à luta contra as forças de Franco. As celas foram inspiradas tanto pelas idéias surrealistas e de abstração geométrica quanto por teorias artísticas vanguardistas sobre as propriedades psicológicas das cores. As camas ficavam em ângulos de 20° graus, tornando quase impossível dormir nelas, e no chão das celas de 0,90 metros por 1,80 metros havia tijolo e outros blocos geométricos espalhados para impedir que os prisioneiros andassem de um lado para o outro. Restava-lhes fitar as paredes, curvas e cobertas de cubos, quadrados, linhas retas e espirais psicoativas que usavam truques de cor, perspectiva e escala para provocar angustia e confusão mental. Efeitos de luz davam a impressão de que os desenhos vertiginosos se moviam nas paredes. Lourencic preferia usar o verde porque sua teoria dos efeitos psicológicos das várias cores, ele produzia melancolia e tristeza.”. (Zizek: 2006)

Uma perspectiva possível de análise obriga o leitor a se apegar a uma experiência imagética singular - a lógica dos conjuntos serve de facilitador à extensão do exemplo “ao infinito” dado que cada (micro) região do Globo esconde suas particularidades mais obscuras.
Os regimes totalitários como fenômeno próprio da modernidade associado (aleatoriamente aqui) à experiência fascista na Alemanha como fenômeno particular é a dimensão imagética do artigo.
Inicialmente, o extremismo ou as ações de caráter extremista não é característica exclusiva de neonazistas ou de grupos minoritários, por exemplo, terroristas islâmicos. O mesmo vale para a provinciana crença de que o tratamento dado às mulheres ou aos homossexuais no Oriente Médio corresponderia à mesma experiência acerca do feminismo sob a perspectiva ocidental. O fato de o Egito refletir uma lição democrática, e os muçulmanos serem os maiores leitores de poesia contradizem a falsa imagem midiática americana onde os outros são “bárbaros” não-democráticos esperando a cavalaria salvacionista de Deleuze.
Tendo a assertiva em vista, curiosamente, o extremismo parece disseminado em células e não mais atende aos estereótipos associados unicamente à figura mítica-Moloch de Hitler.
Acertadamente Ali (2005) assim coloca:
 “É um fracasso completo de a imaginação ocidental ver somente Adolf Hitler como inimigo. Isso começou durante a Guerra de Suez, em 1956, que chamo de a primeira guerra do Petróleo. Gamal Abder Nasser, o líder nacionalista do Egito, foi descrito pelo primeiro-ministro britânico Anthony Eden como um Hitler egípcio. E continuou sendo assim. Saddam Hussein se tornou Hitler quando deixou de ser amigo do Ocidente. E então, Milosevic se tornou Hitler. Os fascistas croatas e as brigadas especiais da SS na Bósnia e no Kosovo que lutavam por Hitler raramente são mencionados. Agora, a Al-Qaeda e o Talibã são retratados como islamo-fascistas. A dedução mais poderosa é de que Osama Bin Laden é outro Hitler, mesmo sem poder estatal. É uma afirmação grotesca se pensada com seriedade.”.
No entanto, as células se tornam eficientes em sua articulação em prol de um objetivo “comum”, justamente e perversamente, quando as aspirações gregas forem levadas a cabo. O efeito de uma sociedade em rede e de Controle é estendido às relações sociais como um todo onde a informação deve necessariamente se encontrar disponível. A “sinuca” do hilário e escatológico destino do “século deleuziano” (para usar as expressões de Foucault) está associada à tênue linha que distingue o real do virtual a partir de uma Lógica do Outro.
A profética frase de Marx no qual a História se apresenta primeiramente como tragédia e a segunda como farsa associado à nova economia política impõe à intelectualidade, à multidão esclarecida e às Instituições a árdua tarefa de administrar um surreal circo e se manter nos bastidores de um auxílio terapêutico a uma massa significativa de pessoas incapazes de simbolizar o nível necessário e básico para a sociedade atual[1].
A partir da perspectiva narrada, talvez a assertiva mais surpreendente decorra do fato de que a luta de classes nos países de tendências moralistas e/ou pouco democráticas será mais concreta e animalizada.
Por sua vez, o horror “sutil” presente no título talvez caiba aos países mais velhos, em especial, o Leste Europeu e os (ex)estados comunistas e pode ser remetido a uma violenta revanche de classe onde as pequenas e as sutis tramas conspiratórias “encenadas” nos palcos da intimidade se apresentem no temor do imaginário coletivo.
Esse temor (o que não significa realização de fato) é o produto mais bem elaborado de sociedades cuja regra de sobrevivência inculcada nos indivíduos a partir de uma Vida Capitalista, a saber, a concorrência e o consumismo, tornaram os valores últimos das aspirações humanas.
Em suma, são as relações sociais pautadas por uma sociedade de risco, em especial sociedades ricas e cultas, na medida em que a educação por si só não evita a incapacidade de simbolizar, as mais apropriadas para ilustrar a nova luta de classes. Essa é possível resposta à ascensão de regimes escravistas nos campos de concentração em volta do mundo no século xx e a manutenção da sobrevivência do trabalhador mediante (essa é a questão) uma complexa rede de relações impessoais exploratórias.
Talvez, a solução possível seja a habilidade da ciência na previsão e na prevenção de “máquinas inconscientes” que se encontram no limite da capacidade de simbolizar; capacidade essa que não necessariamente depende de educação ou da erudição. Essa sutileza implica possivelmente à volta do recalcado em “protótipos” maquiavélicos pouco propensos à simbolização. Podemos concluir que a “deficiência” nas mediações necessárias que permitam os indivíduos passarem do concreto para o simbólico não necessariamente é “suprimida” por educação, uma vez, que a perversidade em si é, tal como o mercado, é amoral.
As perspectivas “otimistas” para uma Europa Extremista possivelmente podem ser retratadas por duas metáforas curiosas, a saber, as clássicas cassadas - “elegantes” e “divertidas” - da outrora elite vitoriana (um remake empobrecido de La Règle Du Jeu onde o caçador literalmente virou a caça) e a as práticas laboratoriais experimentalista das experiências modernas no âmbito do privado.
O fundamental para nossos propósitos é que a questão do reflexo necessita de (re) organização e (re) construção produzindo novidades, isto é, produzindo a reflexão propriamente dita. A ênfase aqui é que os males do sistema social passado, potencialmente se refletirão na massa geracional criada sob a sinistra sombra dos vestígios das experiências limítrofes - ressaltando que o “trágico” destino singular de um indivíduo em curto-circuito independe do desejo dos censores, dos religiosos, dos cientistas e de qualquer outro, uma vez que a pulsão e suas vicissitudes estão “fora” de controle.
Por fim, a “alquimia” neurológica na supressão das angústias pelo acesso do Trigêmeo é a aproximação de uma (pseudo)cura na medida em que a supressão das mesmas por esses métodos incisivamente fisiológicos é uma aproximação nada gentil de uma encenação burlesca e asséptica de uma Eugênia que se descortina á vista das ciências e impõe como questão definitiva à emergência da Ética como ferramenta necessária aos impasses do “nó obsceno da ideologia”.




[1] Essa administração do espetáculo é evidentemente o retorno à Política em seu sentido aristotélico associado aos novos movimentos de articulação dos partidos políticos pelo mundo associado à tendência infeliz em substituir o perigo comunista pelo perigo muçulmano. Os neofascistas radicais e marginais - dos Republikaner a grupos xenófobos atualmente “coloridos” – têm a radicalização como maior perigo o fato de que os mesmos não hesitam em utilizar o discurso simpático de uma vertente preocupada com os valores históricos de uma esquerda humanista.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Imagens Movimentos


Um fato corriqueiro mas extremamente estranho é a criação, pela sociedade como um todo, de um impressionante banco de dados em movimento, ou na expressão de Deleuze,estamos em posse de "arquivos". Trata-se das inúmeras câmeras espalhadas pelo cenário urbano.Bancos, shoppings, estacionamentos, elevadores, supermercados, instituições públicas, condomínios residenciais, algumas escolas, aeroportos, dentre outras, se encontram vigiadas e monitoradas elaborando fonte viva de material para análise psicossocial. A invenção do uso das câmeras para filmar o comportamento de indivíduos...possivelmente saiu de práticas laboratoriais que estudam o comportamento humano, provavelmente. Por um lado, essa vigilância estendida é capaz de auxiliar em casos de desaparecimentos, roubos e outros crimes mais graves. A polícia faz uso constante dessas imagens captadas do cotidiano, assim como as mídias em geral aproveitam as cenas da bárbarie em benefício de audiência e publicidade, no entanto informam.

O primeiro fato surpreendente é que algumas décadas atrás, se a idéia de uma Sociedade de Controle fosse proposta, tal nos moldes que temos hoje, pareceria uma idéia um tanto assustadora. No entanto essa idéia se espalhou e encalácrou nas nossas vidas. Mecanismos de controle do comportamento da espécie humana sempre foram cogitados. Basta nos recordar-mos da criação de instituições psiquiátricas, conventos, prisões etc. O filosófo Bentham já havia proposto um meio de vigiar sem ser visto - o seu famoso "panopticon". Suas idéias, que hoje parecem mais pueris, ganharam força e foram se adaptando ao aparato tecnológico desenvolvido. Tecnologia a serviço da vigilância. Um fenômeno secundário (na verdade nem tão secundário assim) é a enorme criação de um mercado de máquinas de controle. Uma indústria que não para de crescer. Indústrias de Máquinas de Controle.


Profissão: observador das interações maquínicas.


Se por um lado essas quinquilharias forjam uma sensação de segurança ("estamos sendo viajados, estamos seguros") por outro, em nome dessa segurança, a coletividade autoriza a monitoração de parte da sua vida. A sensação de que estamos sendo observados, no entanto, é atribuida a alguns paranóicos, que se "alucina" acreditando estarem sendo observados. Frágil linha entre a realidade e a loucura. Curiosamente, no entanto, a proliferação da vigilância atenderia a uma importante necessidade da psiquê dos indivíduos assustados com a violência espalhada: devido a um grande empobrecimento simbólico (haverá muitas postagens sobre essa situação de empobrecimento) o que se tem é uma mente dada com mais facilidade aos sintomas neuróticos em geral. A necessidade de vigilância vem muito para atender a um certo tipo de paranóia coletiva  (diferente dos sintomas caricatos observados individualmente). O medo da violência é apenas a ponta do iceberg para compreender essas tensões psiquícas que são amenizadas quando se acredita estar sendo protegido pelo aparato de segurança tecnológico.

Um outro fator curioso é que conseguimos reduzir a complexidade de se observar a sociedade para inferir análises sociais. Evidentemente, teremos em mãos imagens reveladoras da dinâmica social e dos seus comportamentos. Muitas imagens sobrepostas poderiam revelar, por exemplo, um pouco da lógica maquínica social. Basta, portanto, assistir a inúmeros vídeos que registram a saída dos indivíduos para o trabalho. Grande parcela reproduz exatamente os mesmos sinais cognitivos (ou próximos) que auxiliam no GUIA para à ação (Chegar ao trabalho na hora marcada, por exemplo). A repetição registrada e o corpo biológico atendendo à imperativos sociais é bem explícito.




Registro de ações máquinicas: Sociedade Paranóica.


O Panopticom: Hoje dissiminado e a céu aberto 


Importante lembrar também que a proliferação dessas máquinas de controle (que controlam as ações visando dar a elas um padrão de sociabilidade desejado pelo poder hegemônico) aumentam na medida em que a violência tende a atingir o maior número de habitantes das metrópoles. Criamos, assim, um grande laboratório a céu aberto. As práticas de filmagens dos estudos comportamentais que se davam em ambientes controlados (laboratórios de estudo comportamentais) se dissiminou por todos os cantos e se encontram muitas vezes camufladas, a ponto de não notar-mos quando estamos sendo vigiados. Cada vez menores e mais discretas, a maquinária da vigilância e do monitoramento cumpre a sua mais importante função, a saber, assegurar a "normalidade", a repetição e o controle das pulsões humanas, que como sabemos, podem se externalizar de maneiras a mais variadas possível. A disseminação das imagens por métodos de controle está na mão de todos nós: os celulares, por exemplo, filmam eventos que muitas vezes serve como o registro factual da realidade e são expostos para todos (you tube, por exemplo).


Camêras discretas utilizadas para monitorar as ruas: quem observa os que vigiam é uma questão fundamental.





segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A Morte como paradigma estrutural

Para pensar uma filosofia maquínica é necessário sugerir que a Morte tem um papel fundamental porque ela representa, de maneira estritamente biológica (e somente nessa perspectiva podemos compreênder a morte já que somos, em essência, um organismo biológico), o derradeiro final. Filosoficamente devemos minar especulações que possuam qualquer caráter mágico. O que há é uma sucessão de máquinas: máquina biológica, máquina simbólica, máquina química e, algumas vezes, máquina social. Máquinas dependem de circuitos, e eles estão por toda parte: no corpo humano, no campo do desejo, na constituição da psiquê, nas instituições jurídicas etc. Pois bem, se compreendermos com sinceridade que realmente o que há são máquinas de funcionamentos (codificáveis - Gênoma, formação do inconsciente já relativamente codificado, ligação de átomos  e energia codificáveis etc) destituídas de qualquer sentido a priori, a relação de causa e efeito fica cada vez mais clara. Todo sentido, ou tentativa de atribuir um sentido à existência, sempre será uma construção discursiva humana extremamente subjetiva. A única certeza que temos é que as máquinas avariam, ou seja, se desgastam e muitas vezes chegam ao seu final por não ter mais energia.


A Astrofisíca já sabe: O SOL morrerá em alguns bilhões de ano. O fim do planeta terra (se não desenvolvermos tecnologia para sobreviver sem o sol) já está com os dias contados. 



As máquinas chegam ao seu fim. E depois desse fim, não há absolutamente nada - lembremos que a invenção de vida após a morte não passa de uma ficção. Sendo esse fato, o fim do funcionamento de uma máquina,ou seja, sua morte, de uma obviedade gritante, fica impresso e registrado nos nossos mais profundos sentimentos o verdadeiro pavor frente a esse Vazio insuportável. Esse vácuo existêncial também está presente no Universo. Senão vejamos: é certo pelos mais sofisticados cálculos que a probabilidade de um asteróide nesse exato momento estar caminhando em direção a terra (devido a forças do acaso, o meteoro não possui o propósito de destruir a terra obviamente|) é extremamente plausível (compreendendo a infinitude que é o Universo e a quantidade de meteoros que viajam pelo espaço); e esse encontro catástrófico liberaria energia para dizimar toda a vida do planeta. E isso já aconteceu no período jurássico. Não seria uma novidade.

As forças do Acaso: Fim da Humanidade sem qualquer sentido em si. Forças da Natureza, apenas.

A Morte é própria da força da natureza, esse locus onde não subsiste sentido além da sobrevivência. O encontro com essa Verdade crua, nos lança ao Horror do Vazio. Como seres de espécie aptos a ter consciência de seu fim, nós homens, em resposta a esse terror que é a morte, forjamos meios de conviver com ela atribuindo à Morte todo um colorido especial. Desde os primórdios, a maior parte das tribos e a maior parte de nossos ancestrais atribuíram um sentido mágico à Morte. Criamos deuses, criamos histórias e forjamos um sentido. Preencher esse vácuo é essencial para uma boa saúde mental, isto é, somos poupados de grandes reflexões sobre o que é a morte em sua crueza, e contamos com uma sofisticada ilusão consentida e aceita por maior parte da humanidade - a Religião. Preencher esse vácuo é uma das funções da igreja na sua criação de santos e Deus. A morte é a força mais devastadora que nossa psiquê pode encontrar no meio de seu desenvolvimento. Tão devastadora que em sua tentativa de promover uma "paz (IN)terior"consegue se materializar em instituições sociais destinadas a reforçarem o Mito.

A Morte não se manifesta somente como algo que fugimos. Pelo contrário, em alguns indivíduos, a morte é a própria força motora - submetidos à uma Pulsão de Morte, alguns indivíduos tem o papel de reforça-la e sempre nos fazer lembrar de que há uma Pulsão especial, uma força que atraí alguns a ter encontros particularizados com a morte e externalizá-la no próprio corpo - um suicída no caso extremo, um desejo de matar (assassínos), e até mesmo autoflagelações que culminam em risco de vida. As manifestações são múltiplas. Mas é característica fundamental da máquina humana o seu fim. Como de qualquer ser vivo, aliás e até seres inanimados.


O encontro com o Real (Lacaniano): Máquina "avariada" e as entranhas da Natureza. Nada além.

Para ajudar na compreensão dos fenômenos religiosos em geral devemos observar a existência crucial daquilo que sem ele a religião poderia nem existir como a conhecemos, isto é, o SOFRIMENTO. O papel do sofrimento é fundamental porque, além da dor psíquica, padecemos muitas vezes da dor corporal (que pode ser exclusivamente fisiológica ou psicológica que atravessa o corpo e cria-se as famosos sintomas e neuroses psico somáticas). Esse padecimento leva alguns seres humanos a buscar saídas muitas vezes irracionais. Vejamos a história do próprio Cristo: é um percalço de sofrimentos. Há sofrimentos em todas as partes. A maior parte dos encontros entre Jesus e seus fiéis são pautados por conflitos permeados de dor e angústias próprias da miséria da condição humana. Isso explica, em partes, porque os evangélicos necessitam explicar e vivenciar seus sofrimentos dentro de um universo destituído de qualquer garantia de existência, isto é, o universo místico. Muitos esperam a sua cura de um poder maior, invísível e extraordinário. Podemos até dizer que se trata de um tipo de pensamento muito próprio dos nossos antepassados primitivos. Os fiéis, então, depositam suas expectativas em um espaço vazio que se sustenta apenas pelas narrativas biblícas e relatos de outros fiéis que acreditam que foram "abençoados". A fé é um verdadeiro salto no escuro.



A FÉ, UM SALTO NO ESCURO DE UM PENSAMENTO PRIMITIVO



Pensamos, assim, que no campo teórico dos estudos sociais da religião deveria-se levar em consideração o fenômeno do sofrimento como um dos principais pilares que sustenta a existência da Religião. Mas vale uma ressalva: geralmente os fiéis atribuem ao próprio sofrimento sentidos cujas razões desconhecem, isto é, muitas vezes não se sabe do que exatamente se sofre e nem o porquê. Podemos observar que existe, primeiramente, um véu de ignorância por parte dos fiéis. Essa ignorância é um desconhecimento das raízes de seus sofrimentos - nesse caso os mal-estares psíquicos não são explicados no âmbito da psiquê ou dos fenômenos mentais, mas atribuido às forças mágicas. Pelo contrário, os fiéis insistem em causas mágicas e correlações sem qualquer tipo de prova concreta. Já os sofrimentos fisiológicos apesar de atribuirem as causas da dor a um mal funcionamento do corpo humano, ainda assim, os crentes atrelam às explicações médicas fenômenos sobrenaturais. É o caso de um fiel canceroso que se apega ao pensamento mágico para encontrar uma justificativa mística de um desequilíbrio que ocorre na máquina do corpo humano. Importante lembrar que dor psicológica e dor física podem se entrecruzarem: tensões psíquicas influencia o fisiológico e outras vezes tensões fisiológicas comprimem o estado psíquico.

Se o sofrimento advém da instância psíquica ou física ele também advém dos impasses da configuração social estabelecida pelas sociedades humanas. O sofrimento de se estar desempregado, estar sem recursos materiais etc também levam muitos indivíduos à esteira da fé. Mas peguemos um exemplo muito elucidativo que ajuda a entender o porquê dos fiéis atribuírem à Deus certas curas patológicas. Vamos aos fatos: Um evangélico sofre de alguma dor física ou mal estar psíquico. Após passarem pelos especialistas (médicos e funcionários da saúde mental) seus sofrimentos não cessam nem mesmo com remédios sintéticos. Há um conflito psíquico a ser resolvido (depressões, angústias, apatias etc, por exemplo) e esse conflito vai ser resolvido na arena dos templos e casas de oração. E em alguns casos, principalmente no caso dos mais humildes e devotos, algumas vezes o sofrimento é cessado. Ora, o modo como os religiosos resolvem seus conflitos psíquicos\orgânicos é um modo exemplar que pode revelar, por incrível que pareça, um traço presente na História Ocidental e Oriental e que pode representar um mecanismo próprio da psiquê humana em um contexto evolutivo. É fato (e isso é um dogma irrefutável para quem quer pensar com retidão) que não convém, a bem do conhecimento, acreditar que há um Deus que cura. Sendo assim, Deus deve estar morto, como bem disse Nietsche. Retirando qualquer misticismo de cena, o primeiro fato a reconhecer é que há de fato curas. Não podemos desprezar os relatos dos evangélicos quando dizem que "foram curadas por Deus".

Se há então o fenômeno da cura, a quem podemos atribuir esse fato a não ser ao próprio indivíduo que foi curado? Se há uma cura ela ocorre exclusivamente no âmbito psíquico, nos meandros de suas forças já tão conhecidas pelos psicanalistas. Desde conversões histéricas mais extremadas à relações mais sutis, o que temos é um fenômeno de AUTOCURA. Esse processo de auto cura necessita da fé, dos templos (cena) e dos missionários que simbolicamente representam Deus na terra. O que ocorre nos cultos e nas orações é mais uma manipulação no simbólico do sujeito. Uma manipulação, que longe de ser maquiavélica, se dá sob a permissão do próprio sujeito.



FALE COM O APÓSTOLO: MANIPULAÇÃO SIMBÓLICA E SIMBIOSE PSIQUICA NOS PROCESSOS DE "CURA"



A relação do homem religioso com o templo ou com o pastor é de pura significação simbólica. Arranjo simbólico que flutua à medida que os crentes se relacionam com a instituição religiosa e seus representantes. Pode-se sugerir que o inconsciente e suas relações com o mundo mágico, o mundo de deuses, pode ser, em última instância, uma saída do conhecido mecanismo de defesa do inconsciente diante o sofrimento"inexplicável" por parte dos seus fiéis. Há um jogo simbólico capaz de movimentar sentidos, energia psiquíca e, principalmente, um jogo que reconfigura as inúmeras forças mentais por meio de combinações simbólicas que fazem sentido na vida e na particularidade dos fiéis. Seria interessante pensar que a própria religião é uma criação do universo simbólico que reflete na "terrenidade" um impasse existencial maior, a saber, o impasse que todos nós confrontamos com a morte.Voltaremos, outro dia, nessas relações com maior profundidade.



A filosofia maquínica é uma proposta acima de tudo. Por ser uma proposta, ela não tem a obrigação de conter um Sistema acabado e cientificamente "correto" da realidade; ainda que acreditemos na possibilidade de se atingir a coisa-em-si em seu sentido hegeliano. È uma proposta audaciosa, no entanto. Essa proposta se utiliza de conceitos advindos de diversas áreas do saber, mais especificamente, da Psicanálise, da História, da Sociologia, Antropologia e Filosofia - já frisando que não cabe lugar algum para a Metafísica, essa "invenção" que a nosso ver é pura perda de tempo. A filosofia maquínica não está preocupada em manter um rigor epistemológico que tenha como resultado o "abafamento" das idéias. Pelo contrário, os conceitos podem ter uma liberdade em ser citados contando, assim, com a inteligência do leitor e pressupondo que se conheça minimamente os termos utilizados. Estamos mais interessados em criar, imaginar hipóteses e contextualizá-las com exemplos da história e, por quê não, do cotidiano e seus eventos aparentemente banais; desde os eventos mais simplórios, mas reveladores de tendências e narrativas,aos mais extremos. Acreditamos que é nos EXTREMOS que se encontra tudo o que se busca acerca de uma verdadeira origem do "ser" como, por exemplo, a disseminação da prática da "foda de punho". Sendo assim, importante frisar que não é objetivo do blog explicitar conceitos de maneira didática mas utilizá-los com certa margem de liberdade e especulação para, em momentos futuros, servir de base para uma conceituação mais rigorosa. E contando, até mesmo, com a ajuda dos leitores que perdem seu tempo por essas "bandas" virtuais. Estamos mais interessados em imaginar uma construção teórica que agrega conhecimentos de vários saberes, noções de áreas que aparentemente não se se convergem mas que serve de noções e sentimentos "delirantes". O objetivo é lançar idéias ao vento, acreditar que elas circulam e agregam novas idéias, novas observações e caminhos para se pensar sob uma perspectiva séria, cuidadosa e imaginativa.

A filosofia maquínica é uma criação em constante transformação. Apesar do título "máquinico", essa filosofia não se adapta tão bem assim às especulações deleuzianas, apesar de haver certas semelhanças entre alguns conceitos.

A filosofia maquínica parte de alguns pressupostos.

I) Primeiro, é necessário partir de um sentido específico de Homem. A filosofia máquinica parte do princípio de que o homem (a espécie humana) faz parte de uma cadeia evolutiva com contornos Darwinistas. Acreditamos na "animalidade" do homem e que se o mesmo não se comporta como os animais em muitas instâncias da vida é porque o homem está relativamente bem socializado dentro de um elaborado projeto civilizacional, nada além. Não estamos preocupados em defender a idéia de que existe um sentido de evolução - até mesmo porquê tal conceito não existe. Aliás, eles existem na mentalidade antropocêntrica do homem médio. Mas quem deseja realmente pensar em termos honestos, deve admitir de ante-mão que qualquer atribuição evolucionista com contornos culturais deve entender que tais conceitos evolucionistas não passam de juízos de valor. Na verdade o termo "evolução" é carregado de valores morais e subjetivos. Alguns pensam que somos mais evoluídos que os animais e isso nos diferencia de tal modo que a nós, homens, são dadas vantagens que nos colocariam como um ser "especial". Não defendemos essa idéia. Pelo contrário, defendemos que somos animais com capacidades cognitivas mais complexas que os dos nossos ancestrais. Temos a capacidade de linguagem e de símbolizar, mas isso apenas nos coloca como seres dotados de características diferentes em relação a outras características dos animais. Uma diferença radical mas, ainda assim, diferença. Portanto, a filosofia maquínica parte do princípio de que o homem é uma espécie animal (e nesse sentido, ou seja, somos realmente animais diferentes das bactérias, mas muito mais próximo de nossos ancestrais, tais como algumas espécies de macacos). Isso é importante porque não há outras possibilidade ou saídas para uma filosofia maquínica: devemos considerar o homem parte da espécie animal que nada têm de especial a não ser certas singularidades (capacidade cognitiva mais elevada, capacidade de abstração, formação psíquica por vias simbólicas e a consciência-de-si e da morte). Então o primeiro axioma de nossa filosofia é considerar o homem como um bicho (literalmente). Uma espécie animal que como todas as espécies de seres vivos apresenta particularidades e singularidades, mais todas elas calcadas em um substrato biológico.


PARENTES DISTANTES. DARWINISMO E BIOLOGIZAÇÃO DO HOMEM

II) O substrato biológico é importante. Porém, não defendemos a idéia de que os fenômenos socias possam ser explicados por uma lógica fisiológica. Mas, no entanto, podemos recorrer à biologia quando pensamos puramente no funcionamento do corpo humano. Cada orgão possui uma função. O coração, por exemplo, cabe à função de bombear o sangue. Todos os orgãos são inter relacionados e funcionam como uma máquina em seu conjunto. Uma máquina, não tão previsível, mas previsível a ponto de sermos capazes, com a tecnologia existente, de criar bexigas em laboratório e compreender bem o funcionamento e mecanismo dos orgãos no geral e suas patologias. Há, então, um primeiro elemento que se comporta exatamente como uma máquina, a saber, o corpo humano. Essa "impressão", considerar o corpo como uma máquina, faz todo o sentido frente ao desbravamento do Genôma: há um código a ser decifrado. Somos fluxos e máquinas, pois, partimos do pressuposto que há uma lógica subjacente ao funcionamento do corpo e que ela pode ser descoberta em sua plenitude pelo saber científico. A primeira noção de máquina é justificada no âmbito orgânico, químico, físico e biológico. Mas a segunda caracterísitca da máquina humana é ser detentora de um inconsciente também máquinico que pode ser inclusive reduzido a fórmulas "matemáticas". Não é isso que ocorre nos "matemas" lacanianos?

III) Além do biológico, que já comporta uma noção de máquina, também somos formados pela psiquê, ou seja, há um sistema simbólico que se encontra presente na formação do mental e do inconsciente. No entanto, o inconsciente e as formações mentais não devem ser explicados dentro de um paradigma organicionista e biologizante. Longe disso, a psiquê tem sua história e ela é essencialmente simbólica que interage com o mundo social. Porém, apesar da formação mental ser essencialmente simbólica e completamente imprevisível em sua formação, os estudos de Freud e de seu grande precursor Jacques Lacan, desvelaram algumas particularidades de como funciona esse simbólico, isto é, não nos é desconhecido as trajetórias possíveis e existentes da pulsão que auxiliam na formação do inconsciente. Aqui vamos nos desvincular dos autores citados e afirmar que também o inconsciente é uma máquina. Máquina de símbolos, relações, fantasias etc cujo o funcionamento também revela padrões e podem ser codificados. Esse é o segundo axioma de uma filosofía maquínica, a saber, sermos uma máquina abstrata cujo inconsciente está disseminado por todo o aparelho social: na televisão, nas artes, no seio familiar, nas universidades etc. O inconsciente é maquínico e esse conceito de "inconsciente maquínico" nos aproxima da obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Tomaremos liberdade de alterá-lo, reinventá-lo e especular possíveis leituras que pegam de empréstimo aqui e acolá conceitos que ora se apresentam mais acabados, ora se tornam apenas inspiração para o desenvolvimento de novos destinos conceituais. 

III) A filosofia maquínica não permite a autorização para relacionar qualquer explicação calcada em fenômenos sobrenaturais (existência de espíritos ou coisas do gênero); muitos menos explicações que atribuam aos fatos caráter religioso. Não acreditamos na existência de seres mitológicos e isso envolve Deus. Os Mitos têm uma função essencial nas sociedades em geral, mas eles atendem mais a uma demanda psíquíca e social do que qualquer outra coisa. Logo, o ateísmo é fundamental para que consigamos desvelar o funcionamento dos fenômenos psíquicos e sociais. Tarefa difícil, dado que em pleno séculko XXI vemos emergir com toda força as explicações mitológicas e as práticas mísiticas cujo exctase parece retornar aos seus estádios mais primitivos - por exemplo, acreditar em água milagrosa transformada em mágica pelos pastores das igrejas evangélicas. Enfim, descartamos qualquer traço de crendice popular e contatos com divindades.


São três os axiomas: i) o homem é um animal biológico e faz parte de uma espécie natural dentro da cadeia dos animais existentes e fisiológicamente funciona como uma máquina; ii) O incosciente é uma máquina simbólica; iii) Não há espaço para o misticismo de qualquer natureza. Não há uma única prova consistente da existência de Deus ou de alguma força superior que está à olhar para a humanidade. Os fenômenos atribuídos a deuses e santos são facilmente explicados pelo instrumental científico e os relatos de seus defensores não passam de especulações subjetivas ingênuas e pueris. 


Partindo desses axiomas postaremos algumas especulações, mas sempre à partir dos pressupostos mencionados.



A REALIDADE É UMA SUCESSÃO DE EVENTOS SEM QUALQUER SENTIDO EM SI.