domingo, 23 de dezembro de 2012

O Apocalipse Real - especulações de um futuro sombrio


Frente às inúmeras "teorias" que predizem o fim do mundo, como pensar um futuro realmente catastrófico e, o que é mais importante, possível de acontecer - tarefa essa inglória, afinal exercícios de previsões geralmente ignoram fatores e deixam de levar em conta uma série de fenômenos. Bem, pensando sobre isso me vem à mente um cenário possível. Primeiramente ele se dirige à idéia de precarização simbólica.

Frente ao modo de sociabilidade do neocapitalismo que i) coloca o individualismo exarcebado em primeiro lugar; ii) hipervaloriza o lado material, o consumo e estimula uma vida pautada na aquisição de objetos materias (o que mostra uma pobreza "espiritual" e "de sentido"); iii) estimula o gozo em excesso ("aproveite hoje, já"); iv) alheiamento de uma massa que entregou sua vida aos governantes sem compreender direito as verdadeiras regras do jogo forjadas por uma elite que as mantèm a qualquer preço; v) O avanço da ciência que evidencia cada vez mais a fragilidade da condição humana e do planeta terra em geral; podemos prever um aumento da sensação de insegurança e temor diante dos conflitos do século XXI.

Esse temor (que aumenta com a precarização do Welfare State) aumenta as crises de ansiedade, pânico e conflitos psíquicos e lançam uma parcela considerável de indivíduos no mundo da medicalização compulsória advindo da saúde mental. No entanto, não serão todos que poderão ser contidos por meio de drogas e medicamentos. Alguns desenvolverão modos de dar vazão aos conflitos psíquicos de maneira discreta e silenciosa, no entanto, à margem da Lei (no sentido jurídico e simbólico). Nesse desenvolvimento de uma massa simbolicamente precarizada se tornará cada vez mais difícil manter a saúde mental, o que abrirá novos espaços para o surgimento de psicoses e modos de dar vazão à loucura propriamente dita. Sendo assim, aumentará i) o número de assassinatos, principalmente decorrentes do surgimento de seitas que terão como fundamento sacrifícios humanos e animais, tal como na idade média; ii) práticas sexuais desenfreadas e cada vez mais voltadas à pulsão de morte (por exemplo, na Inglaterra festas denominadas "roletas russas" promovem orgias sem preservativos onde existem portadores de HIV que tem como gozo "passar" o vírus adiante a uma platéia ciente dos riscos - chama-se "the gif" ou "o presente" esse flertar com o perigo, uma vez que todos sabem que existem pessoas contaminadas na "brincadeira" e é justamente esse risco que excita e é a razão de ser dessas orgias); iii) estímulo ao incesto, uma vez que tabus tendem a ser dissipados em uma sociedade permissiva tal como a sociedade neocapitalista; iv) o retorno de cultos religiosos primitivos próprios das sociedades arcáicas - basta pensar nos evangélicos de hoje e seu primitivismo de pensamento mágico (águas que curam, pastores com poderes sobrenaturais etc) v) o surgimento de uma razão perversa que construirá porões e fortalezas escondidas da lei para práticas socialmente não permitidas; vi) surgimento de seitas com adeptos que pregarão o fim dos tempos e outros devaneios temerosos, assim como modos de vida apartados o máximo possível do Estado concebido tradicionalmente. Na verdade isso já ocorre - vide os Amish. vii) retrocesso dos direitos humanos.

Nota-se que o grande desafio do século XXI (além dos já sabidos tais como aquecimento global, exclusão social, exploração do trabalhador, desemprego, crise econômica etc) se concentrará nos modo de desenvolvimentos psiquícos completamente desenfreados e inéditos.Defendemos o aparecimento de disturbíos inéditos e que muito se assemelha aos inícios do tempo. Nota-se um prazer enlouquecido na agressão e extermínio do semelhante.

Frente esse cenário teremos espécies humanas que desenvolverão modos de praticar seus atos desenfreados por meio de elaboradas estratégias inéditas de perversão (a sexual é apenas uma delas). A crueldade será o principal efeito dessa precarização simbólica. Surgirá então um movimento reacionário que desesperadamente tenderá a conter esse fluxo de loucura que nos aguarda diante o século XXI. O desejo pelo fascismo voltará à tona e emergirá relações humanas pautadas em células ao invés de classes sociais. Os indivíduos se organizarão juntos aos seus semelhantes. Bairros de gays, bairros de evangélicos, bairros de incestuosos, bairros de drogados, bairros de fascistas etc. Essa organização em células se comunicará e muitos tenderão a voltar a usar as leis de maneira autônoma e desvinculada do Estado. Por exemplo, religiosos fervorosos formarão células de extermínio (assassinatos) a médicos pró-aborto. Tudo será feito à margem do Estado, secretamente e teremos novas formas de ameaças. Defender idéias será algo perigoso e serão as células que irão corroer as bases da democracia.

Pois bem, essas idéias apenas são um esboço de algo mais sério e complexo que temos observado surgir aos poucos a partir de sintomas e neuroses próprias do século. O termômetro se encontra nos casos esparsos de canibalismo (esse a nosso ver é um dos temores que surgirão com o passar das décadas) e chacinas em massa. O crime organizado se fortalecerá, pois, terá mais recursos financeiros. Esse mundo desenfreado pode ser visto na crise financeira de 2008. Pouco se disse, mas os lucros advindos dos ganhos com as bolhas especulativas no mercado financeiro serviram para aumentar os gozos dos que enriqueceram (Há uma política do Gozo em voga): prostituição, sexo, drogas e consumo desenfreado (pessoas com dezenas de mansões, iates, carros conversíveis, jóias etc). Esses foram os efeitos do enriquecimento de grande parcela da população de Wall Streat.




Loucura e psicopatias: A cara do Neocapitalismo. O verdadeiro apocalipse.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Sobre os evangélicos


A Constituição garante: liberdade de crença e culto. Pois bem, ninguém impede os evangélicos de manifestarem sua adoração a Deus, ainda bem. O que seria desses instintos que clamam por uma forma. Deus dá à forma aquilo que ela necessita, isto é, uma noção de princípio, meio e fim que a mente humana não consegue suportar ficar sem por muito tempo. Os evangélicos são temem o acaso. Precisam de uma história que os convença de que há sentido. Na verdade, demandam o sentido que a vida em si não possui e nem pode fornecer a ninguém. Os evangélicos temem a natureza, pois, somente ela tem a resposta que eles temem: "não há nada além, apenas a natureza agindo baseada numa aparente ordem que nós atribuímos a ela"." O Fim. Os evangélicos temem o fim. Para tanto criaram uma história de lutas, batalhas e sentido. Forjaram práticas de sociabilidade que os permitissem conviver em harmonia (sempre aparente) com outros seres da mesma éspecie psicológica que também creem no mesmo conto. Mais não só. Insatisfeitos com o mundo também pregam que a existência deve ser corretamente vivida. Esse sentido de "correção" se manifesta em algumas práticas, tal como louvar a Deus, evitar o sexo antes do casamento, ler pedações da biblía etc. Vamos aos fatos:

1 - A pobreza e a privação material lançam muitos evangélicos ( a grande maioria proveem de classe média baixa, a pobres) ao desespero. O Estado pouco o ampara. Assim como ampara mal a todos os necessitados. Portanto, razão número um é a privação material e o desamparo. Se bem que muitos andam construindo laços de sociabilidade propício aos negócios. As indulgências da vulgaridade. Muitos abrem pequenos comércios cujo lucro, longe de vir como uma benção de Deus, vem de seus próprios frequentadores. Por exemplo, em padaria de crentes, atraem fregueses crentes. E por aí vai. Sem contar o enriquecimento de pastores por meio de vendas de livrinhos, cds etc. É a ética protestante e o espiríto do capitalismo em sua versão mais óbvia (claro dadas as modificações históricas e ideológicas). Weber seria mais sofisticado.

2 - A loucura da lógica capitalística - livre mercado, individualização, risco etc - levam muitos dos evangélicos a terem dificuldades de lidar com os próprios conflitos emocionais. Quando bebem, bebem demais. Quando fazem sexo, faz-se demais. Quando se drogam, não conseguem parar. Em suma, fazem dos fatos simples da vida um verdadeiro tabu e mal conseguem lidar com os próprios instintos. Por isso quando se voltam à Deus, o sexo é algo tão complicado. Os valores que cultivam são reflexos dos próprios sintomas. Neuroses Coletivas. O pavor envagélico pelo homossexual refletem suas próprias neuroses e patologias. Estão preso à fixa idéia de sexo como reprodução. Um retorno aos séculos passados em termos de mentalidade e estilo de vida.

3 - Estão aprendendo o jogo democrático na política. Tentar impor seus valores por vias do Congresso Nacional é um verdadeiro perigo à espreita que degola o Estado Laico - valor que desconhecem e essencial para a convivência mais racional dos homens entre si. Os valores evangélicos quando são impostos, traz à lembrança o retrocesso e o primitivismo. O pensamento religioso no geral é primitivo. Ignoram relações causais lógicas e coerentes (acontecimentos banais são explicados por forças cósmicas). Tudo passa a ser envolto por uma mística precária e miserável, que não se sustenta quando desvelada a fundo.  

4 - Por fim, mas não somente, possuem dificuldades de compreender o mundo em termos racionais. Entendem a depredação da natureza pela máquina capitalista que tem sua própria lógica de auto destruição como sinais de um apocalipse. Não conseguem entender a plasticidade dos instintos, o jogo verdadeiro que se encontra sob suas próprias experiências. Escamoteiam enfim o próprio gozo correndo atrás de um lugar seguro para se gozar, no altar. Assim se goza melhor, com o eterno pai perdido. Tristes fins para o futuro de uma ilusão, como bem observou Freud.



A crença em uma mística com fundamentos frágeis: neurose e neocapitalismo.

A ENERGIA






Já há muito tempo se observou que no final, a última palavra em termos de formação da psiquê, se tratava de uma ECONOMIA. A energia investida em objetos - desde a escolha dos objetos parciais ao puro fetiche que torna um objeto "dotado" de poderes "mágicos" (uma meia de nailon, por exemplo) - a "economia psíquica", era determinante para a lógica do inconsciente. Portanto, nada mais pertinente falar da energia. A energia é algo de difícil acesso por meio das palavras. Reich, tentou. Jung e Marcuse também. Se falou, outrora, em Nirvana. No entanto, ela encontra-se presente no respirar, no metabolismo, nas partículas quânticas e nos átomos. Somo formados de átomos, células e funcionamentos que despendem de energia, isso é fato! Precisamos nos alimentar para adquirir energia. Mas não é dessa energia que é formado a estrutura psíquica. E energia do qual falamos trata-se de um investimento em uma cena, em múltiplas cenas, em objetos - em uma forma de entender inconsciente tanto como teatro e suas representações ou então como pura usina de fabricação - em cenários, em acontecimentos. Fabricação, produção incessante. A energia continua a pulsar. Mas não é só. Ela precisa ser descarregada de tempos em tempos. Vamos aos fatos: o aumento da criminalidade por motivos torpos. A banalidade do ato é contra investido de uma brutalidade atroz, a descarga de energia violenta por motivos fúteis. Trata-se de um acaso infeliz e uma briga de trânsito que pode acabar em tragédia. A energia precisa descarregar e quanto mais precarizado simbolicamente está o sujeito, mais a descarga toma formas inusitadas.  


O economista e funcionário do Banco Central (Ricardo Neis) que descarregou seu pé no acelarador e atropelou inúmeros ciclistas sabe bem o quanto que a energia quando descarrega não escolhe lugar, basta uma fagulha para que seja desperado o ímpeto da energia. O capitalismo sobrevive como modo de organização da vida social, porque conseguiu de algum modo ordenar essa energia para seus fins. O trabalho, por exemplo. Uma infindável gama de energia é canalizado na produção de bens, serviços, idéias. O Estado precisa canalizar a energia de seus funcionários públicos. Para tanto, não se deve chegar embriagado no serviço, uma vez que a potencialidade (a força, a energia) se encontra debilitada e dispersa. Quanto de energia é depositado na socialização das crianças. Essas possuem uma energia que é essencialmente, em sua origem psicosexual, perversa por natureza. A energia perversa. Enfim, é a energia que move o mundo, que é em si, também energia. Energia solar. O presidente Shoeber, como observou Deleuze, tina um cú solar, um anús solar, era um psicótico bem sucedido, em suma.



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

As facetas do Gozo

A busca do gozo pode ser mediado pela razão, mas apenas para aqueles que conseguem sublimar relativamente bem. Se deseja gozar, mas em quais modos de gozo se deseja gozar? Há inúmeros objetos a que o gozo almeja. Ser penetrado, penetrar, espancar, ser espancado, comer semêm, ser provedor de semêm; ser ou estar em uma orgia, apenas assistir a uma orgia (voyerismo), a parte pênis-destacado do resto. Como bem observou Zizek, é facilmente possível estar em uma orgia, desde que se mantenha a imagem da mãe "intocada" ou "mistificada". O falo! Os excrementos também estão embutidos nessa lógica-do-gozo: urinar e ser urinado, defecar e ser defecado (cropofagia). Homens com mulheres, homens com homens e mulheres com mulheres, em fim, seres humanos com animais (zoofilia) e, por fim, seres humanos com pedaços inanimados (vegetais, bonecas de plástico, pênis de borracha, vaginas de mentira etc. Inúmeras são as formas e o circuito simbólico posto em jogo pelas facetas do gozo. A precarização simbólica não se contenta apenas em retornar aos excrementos, aos signos primários da formação psicossexual - a precarização simbólica é um retorno ao "mais além", o limite é a vida.  Se o capitalismo tem como imperativo o gozar, é de compreender que uma parcela considerável da população se defina simplesmente por aquilo que se goza: "não sou uma mulher, sou uma máquina que deseja ser penetrada, por dois, três pênis ao mesmo tempo". Alguns desejam mais. A Necrofilia é o encontro de impossíveis (onde a vitalidade - fazer sexo é uma forma de manifestar essa vitalidade - de um, se encontra com a finitude, a morte de outro. O corpo morto, gélido, sem vida, é objeto de desejo. Um auxiliar de acção educativa recentemente preso pela polícia federal, tinha uma colecção de milhares de fotos e filmes com cenas de pornografia com bebês, alguns com apenas dois anos de idade. O seu rasto foi apanhado numa operação desenvolvida no estrangeiro e a Polícia Judiciária (PJ) do Porto aplicou-lhe o golpe final. Foi detido anteontem e já está em prisão preventiva, por ordem de um juiz. O suspeito, de 60 anos, a trabalhar na Universidade Portucalense, no Porto, fazia parte de um circuito de intercâmbio de pornografia com menores que funcionava através da Internet. O esquema tinha ramificações em diversos países, um pouco por todo o Mundo.Práticas mais ou menos socialmente aceitas. È necessário padronizar essa "metastáse do gozo" e tentar dar forma aos objetos parciais que deslizam no imaginário simbólico. "Em toda parte são máquinas com seus acoplamentos e conexões. Uma máquina órgão para uma máquina energia, sempre fluxos e cortes. Há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que lhe é ligada, operando um corte. O desejo não cessa de efetuar acoplamentos de fluxos contínuos e de objetos parciais, essencialmente fragmentários e fragmentados.O desejo faz escorrer, escorre e corta". (DELEUZE e GUATTARI, O Anti-Édipo).



Seios e vaginas, objetos de desejo minimamente coordenado.

Imaginemos um processo de precarização simbólica, isto é, quanto mais precarizada a psiquê, mais concreto, mais real sera a "passagem ao ato". Em um telejornal é noticiado um acontecimento curioso: um homem, por volta dos seus trinta anos de idade, não aceita o término da relação amorosa. Não elabora. Não assimila. E a única saída encontrada para lidar com a situação foi literalmente abrir a cabeça da ex parceira e devorar seu cérebro. Precarização simbólica. Um homem foi detido na Flórida sob a acusação de ter matado uma pessoa e comido um olho e parte do cérebro de sua vítima: seu nome é Tyree Lincoln Smith, de 35 anos. A precarização simbólica tem como característica fundante a concretude, haja vista que o que fica prejudicado é a capacidade de abstração: "Não entendo o que se passa na cabeça de minha parceira, preciso abrir e comer o que há dentro. Somente assim consigo "digerir" o término de uma relação.". Mas não é só. José Vicente Matias, conhecido como "Corumbá", "Magrão", "Pedro" e "Agripino", disse ontem, durante a reconstituição do assassinato da turista espanhola Nuria Fernandez Collada, 27 anos, que comeu parte de seu cérebro. Ele também confirmou que bebeu seu sangue durante o "ritual", que incluia uma fogueira e incensos. O assassino disse que fez sexo com a vítima várias vezes antes de assassiná-la. Um devir-canibal. Uma mente em curto-circuito? Nada disso. È apenas um dos destinos do instinto (ou melhor, pulsão). Os casos não são tão isolados. Insurge aos poucos e sorrateiramente novas formas de seres humanos, uma variação da própria éspecie humana. Desconhecidos do passado? Também não. As práticas extremas talvez tenha sido comum em um estado de natureza, onde os humanos ainda não haviam criado instituições para moldar esse instinto violento. Em um estado de natureza não há que se pensar em "família", "casamento", "propriedade" e muito menos em "Estado" regulando as relações permanecendo ora acima e a margem dessas relações, ora intervindo em nome do interesse coletivo. O desejo de comer o outro é real, e não apenas sexual ("comer" no sentido de transar). O furor não tem limites e não consegue enxergar limites a não ser que as instituições coloquem "de fora", externamente, um limite para o instinto. Ora usamos o termo pulsão, ora o termo instinto. A pulsão é o nome que o instinto recebe em uma sociedade civilizada. Claro, há o elemento simbólico que nos diferencia dos animais. Porém, esse aspecto simbólico não freia certas formas de se atender aos imperativos do gozo mortífero; esse gozo "mortífero" tende a se concretizar mais e mais em uma sociedade capitalística. O imperativo do individualismo e da propriedade esvaziaram os sentidos e empobrecem cotidianamente a mentalidade psíquica. O dinheiro e as fezes! já havia observado Freud há alguns séculos atrás.





terça-feira, 27 de novembro de 2012

É NOS EXTREMOS que se encontra o àpice da verdadeira materialização do poço sem fundo que é o inconsciente irracional. Esse inconsciente, do qual mencionamos aqui, é um inconsciente muito específico, sendo melhor começar dizendo o que esse inconsciente não é. Ele não atende às demandas Freudianas clássicas. Não é o inconsciente do Édipo, esse é apenas um certo devir de muitos outros édipos, assim como, "há mais de um lobo" assim deduziu Deleuze. As múltiplas neuroses sustentadas ainda pelo "aparelho lacaniano" em suas estruturas mais íntimas circulam e, para a sorte dois psicanalista, ainda vai bem, obrigado! O que seria a fonte de renda dos profissionais da saúde mental se ainda não fosse pelo Real (indubitavelmente um conceito lacaniano fundamental). Mas ainda, não é desse inconsciente que estamos falando. Nos aproximamos então das "máquinas desejantes" e sim, é um inconsciente mais próximo do que mencionamos aqui. Mas voltemos aos Extremos. Nos extremos teríamos a aguçada percepção do que seria uma ação limite para o inconsciente, seria aquele ato que rompe com a superfície LITERALMENTE! Vamos a um exemplo prático: imagenemos a violência (consentida, sempre) do ato de um verdadeiro "Fist-Fuck", ou "foda de punho". 

A Foda de Punho de que falamos não é tão pueril quanto essa. Falamos de buracos muitos maiores, é necessário mais carne a ser exposta. A nossa foda de punho vai além, ela atenderia dois limites: o que deseja ser perfurado (o passivo) e aquele que vai atrás das entranhas LITERALMENTE. No encontro desses dois pólos Extremos, o limite é literalmente a vida. Parece demais? Então lembremos do caso de Armin Weiwes, mais conhecido como o "canibal de Rotemburgo. O que queria comer e o que queria "ser comido"(literalmente, pois, estamos falando de um devir-canibal). 

Esse inconsciente então responde às demandas do Outro. Não tem censuras, ou melhor há a censura quando se chega a um Limite, no qual é melhor não parar, mas devido a uma série de imperativos (A "Lei" lacaniana num nível, as Igrejas em outro. O Estado em mais outro nível), se para! A questão é a seguinte: em uma sociedade (a nossa) em que há duas forças extremamente visíveis, a manifestação dos extremos de um lado, e tentativas de "contenção" ora mais, ora menos visíveis, do outro lado, temos a seguinte questão: como capturar àquilo que escapa? O inconsciente do qual falamos é "para além do princípio do prazer". Ele é máquinico, isso é certo. Ele é apto a formar combinações das mais variadas possíveis (numa lógica de paradoxos); uma combinação do tipo "mamãe (mais poderiamos começar por outra coisa qualquer) - televisão - cachorro - masoquismo". Não importa quantas combinações pensamos, à nível primário de inconsciente só poderia ser algo nesses termos. Ele é uma máquina respondendo desde cedo à toda uma gama de outras máquinas; "a máquina família", a "máquina desejo da mamãe", e assim sucessivamente. É deste tipo de inconsciente que falamos mais explicitamente. Uma mística de semiótica. E claro, a máquina capitalista regulando uma fonte inesgotável de plásticas pulsões, que necessitam serem de algum modo padronizadas, "normalizadas" até para que fosse possível a reprodução biológica. Claro, que isso não melhora em nada. Já mostrou Freud em O mal estar civilizacional, que a normatização tem um altíssimo preço. Mais não é o assunto aqui. Voltemos então inconsciente e a importância em se observar os Extremos. Nos extremos está tudo aquilo que "escapa" muito mais do que no neurótico e seus infindáveis dilemas "burguêses". Esse algo que escapa tem no limite da lei (tal como no Direito Civil, e não como "limite" lacaniano) àquilo que o aguarda: a retirada do convívio humano, para segurança Pública. No entanto, e quando esse "para-além-do-limite" é concedido entre às partes?


Haverá Liberdade para esse estranho inconsciente do século XXI? Não há que se permitir ou não, já está dado. A harmonia do desejo-do-outro (seja qual for, sem restrições) faz parte do projeto Capitalístico em seu cerne crucial: a Individualidade na ordem Liberal.



O mais importante do caso de Armin Weiwes, foi o fato de haver uma conscessão. A máquina-desejante que necessitou (esse é o termo, é a descarga enérgica, o ponto final da "pulsão de morte"que clama pela descarga) que o canibalismo fosse práticado. Estamos falando do ápice da realização do individualismo que coloca em cheque o ponto nevrálgico da Democracia: a Liberdade do Indíviduo e todo esse sistema enlouquecido que é a Liberdade. É toda a realização de Adam Smith e do próprio Direito Contitucional. A tal dá liberdade. E a liberdade nos Extremos? Temos duas saídas aqui: ou elaboraremos melhor novas  formas de se lidar com o devir-do-desejo -que-vem (próprio de um neocapitalismo, que um dia teorizaremos) ou iremos criar uma máquina de punição para frear essa subjetividade-por-vir?E os extremos são reveladores porque eles são simplesmente a materialização de uma ordem-outra de subjetividade, que de algum modo está presente em todos os indivíduos, mas que foram mais "bem sucedidas" em evitar de ultrapassar à superfície, para alguns.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A negação Ontológica


A negação ontológica
se desdobra na generalização das relações coisificadas entre os homens, buscando atender o imperativo da lógica mercadoria sobre todas as outras lógicas presentes nas relações humanas. Porém, essa negação ontológica é mais formal do que real. As ações dos indivíduos são detentoras de lógicas heterogêneas e lógicas-outras de ação que remetem a diversas lógicas do sistema social para além da esfera do trabalho. Deve-se ter em mente as dificuldades em considerar a existência entre uma adequação absoluta do mundo objetivo e do subjetivo e voltar o enfoque para um entendimento dialético entre estruturas sociais e subjetividade em sua totalidade. A “dessubjetivação”, pensada nesses termos, é resultado de uma “desefetivação” e sua expansão lógica de coisificação é fundamental para a reprodução do capitalismo em sua faceta exploratória e depreciativa do homem em seu sentido genérico. Essa “coisificação” da subjetividade por meio de intensos processos de captura e, portanto, de dessubjetivação, é o espelho de uma subjetividade privatizada e contrapartida da transformação do homem em uma mercadoria como outra qualquer uma vez que o mesmo faz parte da ciranda das equivalências generalizadas da forma mercadoria. Silveira define de modo sucinto o sujeitar do trabalhador: Como coisa, a natureza não é objeto para o homem, no sentido de que não resulta da atividade pratica de um sujeito. Por conseguinte, mesmo sendo constituída como coisa na historia, isto é, pelo homem ela é vivenciada praticamente de uma forma abstrata, como se fosse dotada de poder e de autonomia próprios (essa é precisamente uma das dimensões do estranhamento). E paradoxalmente é como se a coisa encarnada nas diversas formas em que é capaz de metamorfosear-se, em capital, em valor de troca (...) é que pusesse sujeitos: os sujeitos como postos pela coisa, isto é, sujeitados.

O produto do trabalho, ao entrar na ciranda da troca capitalista, já não mais diz respeito ao trabalhador que a produziu, uma vez que, por equivalência generalizada, ele mesmo é uma mercadoria tal como o objeto estranhado. À necessidade de objetivar a vida, de construir e reproduzir a realidade material por meio de relações sociais específicas é atribuída um elemento indispensável e irredutível para que essas mesmas necessidades possam ser efetivadas: a presença do próprio homem. É a impossibilidade, ao menos no presente, da realização da idealidade do capitalismo em não mais necessitar dos aparelhos de dominação para impor sua ordem - uma vez que do homem sempre necessitará – é que surge a necessidade de uma captura que mantenha o trabalhador no mundo estranhado. O corpo dócil é extensão de uma dessubjetivação em ação cujo agenciamento da subjetividade visa à conformação do trabalhador por meio de uma manipulação da subjetividade, direcionando-a ao atendimento dos desejos irracionais da expansão capitalista. A “nova’ subjetividade deve ser não violenta e resignada e o “novo” homem deve estar imerso por inteiro na cotidianidade naturalizada cujas capacidades criadoras, produtivas e cognitivas estão homogeneizadas em função do capital. A venda da força de trabalho por um salário se estende à “venda” da autonomia subjetiva do trabalhador - irônica e perversamente uma venda sem contrapartida salarial, haja vista, que o processo de dessubjetivação é parte de um processo de captura da subjetividade do trabalhador explorado sem que o mesmo tenha consciência da violência a que está exposto.

No termo
captura se encontra inclusa, em um dos seus sentidos, uma ausência de autonomia e liberdade remetendo a uma idéia de expropriação indevida. Não se precisa capturar algo que se possui. À captura é dada a função, junto ao fenômeno da alienação e da fetichização social, de manter atuante a condição de proletariedade e a alienação dos meios de produção. A forma estranhada pressupõe também uma exploração corporal, isto é, uma exploração marcada no corpo dos destituídos dos meios de produção, cuja subjetividade é o nexo que permite a esse corpo estabelecer um vínculo psicofísico com as relações de produção. O fenômeno do processo de dessubjetivação atende os requisitos, para uma compreensão analítica, de método psicossocial, cuja fronteira nem sempre é nítida e se dá de modo dialético entre as instâncias objetivas do social e subjetivas do individuo em sociedade. No entanto, se parte da subjetividade é constituída na relação entre o homem e seu produto de trabalho, não só os objetos entram na lógica da coisificação, mas também as relações que os homens estabelecem entre si passam a atender aos imperativos da coisificação e, dentre eles, à coisificação da relação entre homem e produto de seu trabalho, portanto, de uma subjetividade ontologicamente considerada. É sugerido pensar a dessubjetivação como uma extensão do mundo objetivado em uma relação estranhada: A dessubjetivação do trabalho é um processo de negação do elemento subjetivo; pelo processo de dessubjetivação o trabalhador é transformado de sujeito em coisa. Se essa transformação já é dada pela simples venda da força de trabalho, seu caráter é aprofundado na medida em que o trabalhador se torna um objeto manipulável pela ciência. Assim, a dessubjetivação do trabalho torna a atividade do trabalhador algo em que esse se vê negado como sujeito. Através da dessubjetivação as potencialidades subjetivas do trabalhador se apresentam como independentes e hostis a ele, como pertencentes a um outro. A dessubjetivação reforça o caráter hostil e estranho que o processo de trabalho tem na produção capitalista ao reduzir os elementos subjetivos ao estatuto de coisa.


 
O Trabalhador como Coisa: a velha alienação e a metamorfose do trabalhador.

domingo, 18 de novembro de 2012

Rompendo com as dicotomias maniqueístas, é imposto como desafio refletir acerca da subjetividade e da dessubjetivação considerando suas relações com o capital sem perder de vista três horizontes fundamentais:

i) o capital para se realizar por meio dos homens atuaria mediante um processo de dessubjetivação; no extremo, 
o capital levado a uma expansão irrestrita correspondente a uma dessubjetivação completa do indivíduo culminando na desumanização do homem

ii) os processos de formação da subjetividade do trabalhador estão vinculados ao significado da centralidade ontológica da categoria trabalho. A subjetividade é considerada intrinsecamente vinculada ao “(...) processo da práxis humana do trabalho e do processo de objetivação/ exteriorização do homem como ser genérico. O desafio é vincular uma compreensão ontológica do ser social – ser cuja formação necessariamente é atrelada à categoria trabalho - a uma teoria da subjetividade humana mediada pela forma social do capital; Esse processo equivale a refletir acerca do desdobramento categorial do ser social enquanto uma esfera ontológica específica cujas relações sociais derivadas da esfera econômica são condicionante, mas jamais determinantes;

iii) A dessubjetivação deve ser compreendida como o alvo da captura da subjetividade visando reduzir o trabalhador ao estatuto de coisa. Estatuto esse potencializado pela coisificação das relações sociais instituídas tendo nos valores-fetiches o braço direito para o exercício de dominação do capital;

A precarização do trabalhador é um fênomeno interessante

"A dessubjetivação do trabalho é um processo de negação do elemento subjetivo; pelo processo de dessubjetivação o trabalhador é transformado de sujeito em coisa. Se essa transformação já é dada pela simples venda da força de trabalho, seu caráter é aprofundado na medida em que o trabalhador se torna um objeto manipulável pela ciência. Assim, a dessubjetivação do trabalho torna a atividade do trabalhador algo em que esse se vê negado como sujeito. Através da dessubjetivação
as potencialidades subjetivas do trabalhador se apresentam como independentes e hostis a ele, como pertencentes a um outro. A dessubjetivação reforça o caráter hostil e estranho que o processo de trabalho tem na produção capitalista ao reduzir os elementos subjetivos ao estatuto de coisa".




O Homem-trabalhador-coisa em suas repetições... função social ausente de qualquer traço de função cognitiva apta a desenvolver tarefas de outra complexidade que não a misera função que desempenham... Aqui um exemplo do empobrecimento simbólico que faz parte, a nosso ver, de uma consequencia cruel de uma luta de classes que predomina em qualquer sociedade que cultive a diferença. A ausência de funções intelectuais de média complexidade e a repetição maquínica da função apontam a alienação como consequência última da ilusão social.



Como coisa, a natureza não é objeto para o homem, no sentido de que não resulta da atividade pratica de um sujeito. Por conseguinte, mesmo sendo constituída como coisa na historia, isto é, pelo homem ela é vivenciada praticamente de uma forma abstrata, como se fosse dotada de poder e de autonomia próprios (essa é precisamente uma das dimensões do estranhamento). E paradoxalmente é como se a coisa encarnada nas diversas formas em que é capaz de metamorfosear-se, em capital, em valor de troca (...) é que pusesse sujeitos: os sujeitos como postos pela coisa, isto é, sujeitados.