A busca do gozo pode ser mediado pela razão, mas apenas para aqueles que conseguem sublimar relativamente bem. Se deseja gozar, mas em quais modos de gozo se deseja gozar? Há inúmeros objetos a que o gozo almeja. Ser penetrado, penetrar, espancar, ser espancado, comer semêm, ser provedor de semêm; ser ou estar em uma orgia, apenas assistir a uma orgia (voyerismo), a parte pênis-destacado do resto. Como bem observou Zizek, é facilmente possível estar em uma orgia, desde que se mantenha a imagem da mãe "intocada" ou "mistificada". O falo! Os excrementos também estão embutidos nessa lógica-do-gozo: urinar e ser urinado, defecar e ser defecado (cropofagia). Homens com mulheres, homens com homens e mulheres com mulheres, em fim, seres humanos com animais (zoofilia) e, por fim, seres humanos com pedaços inanimados (vegetais, bonecas de plástico, pênis de borracha, vaginas de mentira etc. Inúmeras são as formas e o circuito simbólico posto em jogo pelas facetas do gozo. A precarização simbólica não se contenta apenas em retornar aos excrementos, aos signos primários da formação psicossexual - a precarização simbólica é um retorno ao "mais além", o limite é a vida. Se o capitalismo tem como imperativo o gozar, é de compreender que uma parcela considerável da população se defina simplesmente por aquilo que se goza: "não sou uma mulher, sou uma máquina que deseja ser penetrada, por dois, três pênis ao mesmo tempo". Alguns desejam mais. A Necrofilia é o encontro de impossíveis (onde a vitalidade - fazer sexo é uma forma de manifestar essa vitalidade - de um, se encontra com a finitude, a morte de outro. O corpo morto, gélido, sem vida, é objeto de desejo. Um auxiliar de acção educativa recentemente preso pela polícia federal, tinha uma colecção de milhares de fotos e filmes com cenas de pornografia com bebês, alguns com apenas dois anos de idade. O seu rasto foi apanhado numa operação desenvolvida no estrangeiro e a Polícia Judiciária (PJ) do Porto aplicou-lhe o golpe final. Foi detido anteontem e já está em prisão preventiva, por ordem de um juiz. O suspeito, de 60 anos, a trabalhar na Universidade Portucalense, no Porto, fazia parte de um circuito de intercâmbio de pornografia com menores que funcionava através da Internet. O esquema tinha ramificações em diversos países, um pouco por todo o Mundo.Práticas mais ou menos socialmente aceitas. È necessário padronizar essa "metastáse do gozo" e tentar dar forma aos objetos parciais que deslizam no imaginário simbólico. "Em toda parte são máquinas com seus acoplamentos e conexões. Uma máquina órgão para uma máquina energia, sempre fluxos e cortes. Há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que lhe é ligada, operando um corte. O desejo não cessa de efetuar acoplamentos de fluxos contínuos e de objetos parciais, essencialmente fragmentários e fragmentados.O desejo faz escorrer, escorre e corta". (DELEUZE e GUATTARI, O Anti-Édipo).
Seios e vaginas, objetos de desejo minimamente coordenado.
Imaginemos um processo de precarização simbólica, isto é, quanto mais precarizada a psiquê, mais concreto, mais real sera a "passagem ao ato". Em um telejornal é noticiado um acontecimento curioso: um homem, por volta dos seus trinta anos de idade, não aceita o término da relação amorosa. Não elabora. Não assimila. E a única saída encontrada para lidar com a situação foi literalmente abrir a cabeça da ex parceira e devorar seu cérebro. Precarização simbólica. Um homem foi detido na Flórida sob a acusação de ter matado uma pessoa e comido um olho e parte do cérebro de sua vítima: seu nome é Tyree Lincoln Smith, de 35 anos. A precarização simbólica tem como característica fundante a concretude, haja vista que o que fica prejudicado é a capacidade de abstração: "Não entendo o que se passa na cabeça de minha parceira, preciso abrir e comer o que há dentro. Somente assim consigo "digerir" o término de uma relação.". Mas não é só. José Vicente Matias, conhecido como "Corumbá", "Magrão", "Pedro" e "Agripino", disse ontem, durante a reconstituição do assassinato da turista espanhola Nuria Fernandez Collada, 27 anos, que comeu parte de seu cérebro. Ele também confirmou que bebeu seu sangue durante o "ritual", que incluia uma fogueira e incensos. O assassino disse que fez sexo com a vítima várias vezes antes de assassiná-la. Um devir-canibal. Uma mente em curto-circuito? Nada disso. È apenas um dos destinos do instinto (ou melhor, pulsão). Os casos não são tão isolados. Insurge aos poucos e sorrateiramente novas formas de seres humanos, uma variação da própria éspecie humana. Desconhecidos do passado? Também não. As práticas extremas talvez tenha sido comum em um estado de natureza, onde os humanos ainda não haviam criado instituições para moldar esse instinto violento. Em um estado de natureza não há que se pensar em "família", "casamento", "propriedade" e muito menos em "Estado" regulando as relações permanecendo ora acima e a margem dessas relações, ora intervindo em nome do interesse coletivo. O desejo de comer o outro é real, e não apenas sexual ("comer" no sentido de transar). O furor não tem limites e não consegue enxergar limites a não ser que as instituições coloquem "de fora", externamente, um limite para o instinto. Ora usamos o termo pulsão, ora o termo instinto. A pulsão é o nome que o instinto recebe em uma sociedade civilizada. Claro, há o elemento simbólico que nos diferencia dos animais. Porém, esse aspecto simbólico não freia certas formas de se atender aos imperativos do gozo mortífero; esse gozo "mortífero" tende a se concretizar mais e mais em uma sociedade capitalística. O imperativo do individualismo e da propriedade esvaziaram os sentidos e empobrecem cotidianamente a mentalidade psíquica. O dinheiro e as fezes! já havia observado Freud há alguns séculos atrás.







