sexta-feira, 30 de novembro de 2012

As facetas do Gozo

A busca do gozo pode ser mediado pela razão, mas apenas para aqueles que conseguem sublimar relativamente bem. Se deseja gozar, mas em quais modos de gozo se deseja gozar? Há inúmeros objetos a que o gozo almeja. Ser penetrado, penetrar, espancar, ser espancado, comer semêm, ser provedor de semêm; ser ou estar em uma orgia, apenas assistir a uma orgia (voyerismo), a parte pênis-destacado do resto. Como bem observou Zizek, é facilmente possível estar em uma orgia, desde que se mantenha a imagem da mãe "intocada" ou "mistificada". O falo! Os excrementos também estão embutidos nessa lógica-do-gozo: urinar e ser urinado, defecar e ser defecado (cropofagia). Homens com mulheres, homens com homens e mulheres com mulheres, em fim, seres humanos com animais (zoofilia) e, por fim, seres humanos com pedaços inanimados (vegetais, bonecas de plástico, pênis de borracha, vaginas de mentira etc. Inúmeras são as formas e o circuito simbólico posto em jogo pelas facetas do gozo. A precarização simbólica não se contenta apenas em retornar aos excrementos, aos signos primários da formação psicossexual - a precarização simbólica é um retorno ao "mais além", o limite é a vida.  Se o capitalismo tem como imperativo o gozar, é de compreender que uma parcela considerável da população se defina simplesmente por aquilo que se goza: "não sou uma mulher, sou uma máquina que deseja ser penetrada, por dois, três pênis ao mesmo tempo". Alguns desejam mais. A Necrofilia é o encontro de impossíveis (onde a vitalidade - fazer sexo é uma forma de manifestar essa vitalidade - de um, se encontra com a finitude, a morte de outro. O corpo morto, gélido, sem vida, é objeto de desejo. Um auxiliar de acção educativa recentemente preso pela polícia federal, tinha uma colecção de milhares de fotos e filmes com cenas de pornografia com bebês, alguns com apenas dois anos de idade. O seu rasto foi apanhado numa operação desenvolvida no estrangeiro e a Polícia Judiciária (PJ) do Porto aplicou-lhe o golpe final. Foi detido anteontem e já está em prisão preventiva, por ordem de um juiz. O suspeito, de 60 anos, a trabalhar na Universidade Portucalense, no Porto, fazia parte de um circuito de intercâmbio de pornografia com menores que funcionava através da Internet. O esquema tinha ramificações em diversos países, um pouco por todo o Mundo.Práticas mais ou menos socialmente aceitas. È necessário padronizar essa "metastáse do gozo" e tentar dar forma aos objetos parciais que deslizam no imaginário simbólico. "Em toda parte são máquinas com seus acoplamentos e conexões. Uma máquina órgão para uma máquina energia, sempre fluxos e cortes. Há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que lhe é ligada, operando um corte. O desejo não cessa de efetuar acoplamentos de fluxos contínuos e de objetos parciais, essencialmente fragmentários e fragmentados.O desejo faz escorrer, escorre e corta". (DELEUZE e GUATTARI, O Anti-Édipo).



Seios e vaginas, objetos de desejo minimamente coordenado.

Imaginemos um processo de precarização simbólica, isto é, quanto mais precarizada a psiquê, mais concreto, mais real sera a "passagem ao ato". Em um telejornal é noticiado um acontecimento curioso: um homem, por volta dos seus trinta anos de idade, não aceita o término da relação amorosa. Não elabora. Não assimila. E a única saída encontrada para lidar com a situação foi literalmente abrir a cabeça da ex parceira e devorar seu cérebro. Precarização simbólica. Um homem foi detido na Flórida sob a acusação de ter matado uma pessoa e comido um olho e parte do cérebro de sua vítima: seu nome é Tyree Lincoln Smith, de 35 anos. A precarização simbólica tem como característica fundante a concretude, haja vista que o que fica prejudicado é a capacidade de abstração: "Não entendo o que se passa na cabeça de minha parceira, preciso abrir e comer o que há dentro. Somente assim consigo "digerir" o término de uma relação.". Mas não é só. José Vicente Matias, conhecido como "Corumbá", "Magrão", "Pedro" e "Agripino", disse ontem, durante a reconstituição do assassinato da turista espanhola Nuria Fernandez Collada, 27 anos, que comeu parte de seu cérebro. Ele também confirmou que bebeu seu sangue durante o "ritual", que incluia uma fogueira e incensos. O assassino disse que fez sexo com a vítima várias vezes antes de assassiná-la. Um devir-canibal. Uma mente em curto-circuito? Nada disso. È apenas um dos destinos do instinto (ou melhor, pulsão). Os casos não são tão isolados. Insurge aos poucos e sorrateiramente novas formas de seres humanos, uma variação da própria éspecie humana. Desconhecidos do passado? Também não. As práticas extremas talvez tenha sido comum em um estado de natureza, onde os humanos ainda não haviam criado instituições para moldar esse instinto violento. Em um estado de natureza não há que se pensar em "família", "casamento", "propriedade" e muito menos em "Estado" regulando as relações permanecendo ora acima e a margem dessas relações, ora intervindo em nome do interesse coletivo. O desejo de comer o outro é real, e não apenas sexual ("comer" no sentido de transar). O furor não tem limites e não consegue enxergar limites a não ser que as instituições coloquem "de fora", externamente, um limite para o instinto. Ora usamos o termo pulsão, ora o termo instinto. A pulsão é o nome que o instinto recebe em uma sociedade civilizada. Claro, há o elemento simbólico que nos diferencia dos animais. Porém, esse aspecto simbólico não freia certas formas de se atender aos imperativos do gozo mortífero; esse gozo "mortífero" tende a se concretizar mais e mais em uma sociedade capitalística. O imperativo do individualismo e da propriedade esvaziaram os sentidos e empobrecem cotidianamente a mentalidade psíquica. O dinheiro e as fezes! já havia observado Freud há alguns séculos atrás.





terça-feira, 27 de novembro de 2012

É NOS EXTREMOS que se encontra o àpice da verdadeira materialização do poço sem fundo que é o inconsciente irracional. Esse inconsciente, do qual mencionamos aqui, é um inconsciente muito específico, sendo melhor começar dizendo o que esse inconsciente não é. Ele não atende às demandas Freudianas clássicas. Não é o inconsciente do Édipo, esse é apenas um certo devir de muitos outros édipos, assim como, "há mais de um lobo" assim deduziu Deleuze. As múltiplas neuroses sustentadas ainda pelo "aparelho lacaniano" em suas estruturas mais íntimas circulam e, para a sorte dois psicanalista, ainda vai bem, obrigado! O que seria a fonte de renda dos profissionais da saúde mental se ainda não fosse pelo Real (indubitavelmente um conceito lacaniano fundamental). Mas ainda, não é desse inconsciente que estamos falando. Nos aproximamos então das "máquinas desejantes" e sim, é um inconsciente mais próximo do que mencionamos aqui. Mas voltemos aos Extremos. Nos extremos teríamos a aguçada percepção do que seria uma ação limite para o inconsciente, seria aquele ato que rompe com a superfície LITERALMENTE! Vamos a um exemplo prático: imagenemos a violência (consentida, sempre) do ato de um verdadeiro "Fist-Fuck", ou "foda de punho". 

A Foda de Punho de que falamos não é tão pueril quanto essa. Falamos de buracos muitos maiores, é necessário mais carne a ser exposta. A nossa foda de punho vai além, ela atenderia dois limites: o que deseja ser perfurado (o passivo) e aquele que vai atrás das entranhas LITERALMENTE. No encontro desses dois pólos Extremos, o limite é literalmente a vida. Parece demais? Então lembremos do caso de Armin Weiwes, mais conhecido como o "canibal de Rotemburgo. O que queria comer e o que queria "ser comido"(literalmente, pois, estamos falando de um devir-canibal). 

Esse inconsciente então responde às demandas do Outro. Não tem censuras, ou melhor há a censura quando se chega a um Limite, no qual é melhor não parar, mas devido a uma série de imperativos (A "Lei" lacaniana num nível, as Igrejas em outro. O Estado em mais outro nível), se para! A questão é a seguinte: em uma sociedade (a nossa) em que há duas forças extremamente visíveis, a manifestação dos extremos de um lado, e tentativas de "contenção" ora mais, ora menos visíveis, do outro lado, temos a seguinte questão: como capturar àquilo que escapa? O inconsciente do qual falamos é "para além do princípio do prazer". Ele é máquinico, isso é certo. Ele é apto a formar combinações das mais variadas possíveis (numa lógica de paradoxos); uma combinação do tipo "mamãe (mais poderiamos começar por outra coisa qualquer) - televisão - cachorro - masoquismo". Não importa quantas combinações pensamos, à nível primário de inconsciente só poderia ser algo nesses termos. Ele é uma máquina respondendo desde cedo à toda uma gama de outras máquinas; "a máquina família", a "máquina desejo da mamãe", e assim sucessivamente. É deste tipo de inconsciente que falamos mais explicitamente. Uma mística de semiótica. E claro, a máquina capitalista regulando uma fonte inesgotável de plásticas pulsões, que necessitam serem de algum modo padronizadas, "normalizadas" até para que fosse possível a reprodução biológica. Claro, que isso não melhora em nada. Já mostrou Freud em O mal estar civilizacional, que a normatização tem um altíssimo preço. Mais não é o assunto aqui. Voltemos então inconsciente e a importância em se observar os Extremos. Nos extremos está tudo aquilo que "escapa" muito mais do que no neurótico e seus infindáveis dilemas "burguêses". Esse algo que escapa tem no limite da lei (tal como no Direito Civil, e não como "limite" lacaniano) àquilo que o aguarda: a retirada do convívio humano, para segurança Pública. No entanto, e quando esse "para-além-do-limite" é concedido entre às partes?


Haverá Liberdade para esse estranho inconsciente do século XXI? Não há que se permitir ou não, já está dado. A harmonia do desejo-do-outro (seja qual for, sem restrições) faz parte do projeto Capitalístico em seu cerne crucial: a Individualidade na ordem Liberal.



O mais importante do caso de Armin Weiwes, foi o fato de haver uma conscessão. A máquina-desejante que necessitou (esse é o termo, é a descarga enérgica, o ponto final da "pulsão de morte"que clama pela descarga) que o canibalismo fosse práticado. Estamos falando do ápice da realização do individualismo que coloca em cheque o ponto nevrálgico da Democracia: a Liberdade do Indíviduo e todo esse sistema enlouquecido que é a Liberdade. É toda a realização de Adam Smith e do próprio Direito Contitucional. A tal dá liberdade. E a liberdade nos Extremos? Temos duas saídas aqui: ou elaboraremos melhor novas  formas de se lidar com o devir-do-desejo -que-vem (próprio de um neocapitalismo, que um dia teorizaremos) ou iremos criar uma máquina de punição para frear essa subjetividade-por-vir?E os extremos são reveladores porque eles são simplesmente a materialização de uma ordem-outra de subjetividade, que de algum modo está presente em todos os indivíduos, mas que foram mais "bem sucedidas" em evitar de ultrapassar à superfície, para alguns.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A negação Ontológica


A negação ontológica
se desdobra na generalização das relações coisificadas entre os homens, buscando atender o imperativo da lógica mercadoria sobre todas as outras lógicas presentes nas relações humanas. Porém, essa negação ontológica é mais formal do que real. As ações dos indivíduos são detentoras de lógicas heterogêneas e lógicas-outras de ação que remetem a diversas lógicas do sistema social para além da esfera do trabalho. Deve-se ter em mente as dificuldades em considerar a existência entre uma adequação absoluta do mundo objetivo e do subjetivo e voltar o enfoque para um entendimento dialético entre estruturas sociais e subjetividade em sua totalidade. A “dessubjetivação”, pensada nesses termos, é resultado de uma “desefetivação” e sua expansão lógica de coisificação é fundamental para a reprodução do capitalismo em sua faceta exploratória e depreciativa do homem em seu sentido genérico. Essa “coisificação” da subjetividade por meio de intensos processos de captura e, portanto, de dessubjetivação, é o espelho de uma subjetividade privatizada e contrapartida da transformação do homem em uma mercadoria como outra qualquer uma vez que o mesmo faz parte da ciranda das equivalências generalizadas da forma mercadoria. Silveira define de modo sucinto o sujeitar do trabalhador: Como coisa, a natureza não é objeto para o homem, no sentido de que não resulta da atividade pratica de um sujeito. Por conseguinte, mesmo sendo constituída como coisa na historia, isto é, pelo homem ela é vivenciada praticamente de uma forma abstrata, como se fosse dotada de poder e de autonomia próprios (essa é precisamente uma das dimensões do estranhamento). E paradoxalmente é como se a coisa encarnada nas diversas formas em que é capaz de metamorfosear-se, em capital, em valor de troca (...) é que pusesse sujeitos: os sujeitos como postos pela coisa, isto é, sujeitados.

O produto do trabalho, ao entrar na ciranda da troca capitalista, já não mais diz respeito ao trabalhador que a produziu, uma vez que, por equivalência generalizada, ele mesmo é uma mercadoria tal como o objeto estranhado. À necessidade de objetivar a vida, de construir e reproduzir a realidade material por meio de relações sociais específicas é atribuída um elemento indispensável e irredutível para que essas mesmas necessidades possam ser efetivadas: a presença do próprio homem. É a impossibilidade, ao menos no presente, da realização da idealidade do capitalismo em não mais necessitar dos aparelhos de dominação para impor sua ordem - uma vez que do homem sempre necessitará – é que surge a necessidade de uma captura que mantenha o trabalhador no mundo estranhado. O corpo dócil é extensão de uma dessubjetivação em ação cujo agenciamento da subjetividade visa à conformação do trabalhador por meio de uma manipulação da subjetividade, direcionando-a ao atendimento dos desejos irracionais da expansão capitalista. A “nova’ subjetividade deve ser não violenta e resignada e o “novo” homem deve estar imerso por inteiro na cotidianidade naturalizada cujas capacidades criadoras, produtivas e cognitivas estão homogeneizadas em função do capital. A venda da força de trabalho por um salário se estende à “venda” da autonomia subjetiva do trabalhador - irônica e perversamente uma venda sem contrapartida salarial, haja vista, que o processo de dessubjetivação é parte de um processo de captura da subjetividade do trabalhador explorado sem que o mesmo tenha consciência da violência a que está exposto.

No termo
captura se encontra inclusa, em um dos seus sentidos, uma ausência de autonomia e liberdade remetendo a uma idéia de expropriação indevida. Não se precisa capturar algo que se possui. À captura é dada a função, junto ao fenômeno da alienação e da fetichização social, de manter atuante a condição de proletariedade e a alienação dos meios de produção. A forma estranhada pressupõe também uma exploração corporal, isto é, uma exploração marcada no corpo dos destituídos dos meios de produção, cuja subjetividade é o nexo que permite a esse corpo estabelecer um vínculo psicofísico com as relações de produção. O fenômeno do processo de dessubjetivação atende os requisitos, para uma compreensão analítica, de método psicossocial, cuja fronteira nem sempre é nítida e se dá de modo dialético entre as instâncias objetivas do social e subjetivas do individuo em sociedade. No entanto, se parte da subjetividade é constituída na relação entre o homem e seu produto de trabalho, não só os objetos entram na lógica da coisificação, mas também as relações que os homens estabelecem entre si passam a atender aos imperativos da coisificação e, dentre eles, à coisificação da relação entre homem e produto de seu trabalho, portanto, de uma subjetividade ontologicamente considerada. É sugerido pensar a dessubjetivação como uma extensão do mundo objetivado em uma relação estranhada: A dessubjetivação do trabalho é um processo de negação do elemento subjetivo; pelo processo de dessubjetivação o trabalhador é transformado de sujeito em coisa. Se essa transformação já é dada pela simples venda da força de trabalho, seu caráter é aprofundado na medida em que o trabalhador se torna um objeto manipulável pela ciência. Assim, a dessubjetivação do trabalho torna a atividade do trabalhador algo em que esse se vê negado como sujeito. Através da dessubjetivação as potencialidades subjetivas do trabalhador se apresentam como independentes e hostis a ele, como pertencentes a um outro. A dessubjetivação reforça o caráter hostil e estranho que o processo de trabalho tem na produção capitalista ao reduzir os elementos subjetivos ao estatuto de coisa.


 
O Trabalhador como Coisa: a velha alienação e a metamorfose do trabalhador.

domingo, 18 de novembro de 2012

Rompendo com as dicotomias maniqueístas, é imposto como desafio refletir acerca da subjetividade e da dessubjetivação considerando suas relações com o capital sem perder de vista três horizontes fundamentais:

i) o capital para se realizar por meio dos homens atuaria mediante um processo de dessubjetivação; no extremo, 
o capital levado a uma expansão irrestrita correspondente a uma dessubjetivação completa do indivíduo culminando na desumanização do homem

ii) os processos de formação da subjetividade do trabalhador estão vinculados ao significado da centralidade ontológica da categoria trabalho. A subjetividade é considerada intrinsecamente vinculada ao “(...) processo da práxis humana do trabalho e do processo de objetivação/ exteriorização do homem como ser genérico. O desafio é vincular uma compreensão ontológica do ser social – ser cuja formação necessariamente é atrelada à categoria trabalho - a uma teoria da subjetividade humana mediada pela forma social do capital; Esse processo equivale a refletir acerca do desdobramento categorial do ser social enquanto uma esfera ontológica específica cujas relações sociais derivadas da esfera econômica são condicionante, mas jamais determinantes;

iii) A dessubjetivação deve ser compreendida como o alvo da captura da subjetividade visando reduzir o trabalhador ao estatuto de coisa. Estatuto esse potencializado pela coisificação das relações sociais instituídas tendo nos valores-fetiches o braço direito para o exercício de dominação do capital;

A precarização do trabalhador é um fênomeno interessante

"A dessubjetivação do trabalho é um processo de negação do elemento subjetivo; pelo processo de dessubjetivação o trabalhador é transformado de sujeito em coisa. Se essa transformação já é dada pela simples venda da força de trabalho, seu caráter é aprofundado na medida em que o trabalhador se torna um objeto manipulável pela ciência. Assim, a dessubjetivação do trabalho torna a atividade do trabalhador algo em que esse se vê negado como sujeito. Através da dessubjetivação
as potencialidades subjetivas do trabalhador se apresentam como independentes e hostis a ele, como pertencentes a um outro. A dessubjetivação reforça o caráter hostil e estranho que o processo de trabalho tem na produção capitalista ao reduzir os elementos subjetivos ao estatuto de coisa".




O Homem-trabalhador-coisa em suas repetições... função social ausente de qualquer traço de função cognitiva apta a desenvolver tarefas de outra complexidade que não a misera função que desempenham... Aqui um exemplo do empobrecimento simbólico que faz parte, a nosso ver, de uma consequencia cruel de uma luta de classes que predomina em qualquer sociedade que cultive a diferença. A ausência de funções intelectuais de média complexidade e a repetição maquínica da função apontam a alienação como consequência última da ilusão social.



Como coisa, a natureza não é objeto para o homem, no sentido de que não resulta da atividade pratica de um sujeito. Por conseguinte, mesmo sendo constituída como coisa na historia, isto é, pelo homem ela é vivenciada praticamente de uma forma abstrata, como se fosse dotada de poder e de autonomia próprios (essa é precisamente uma das dimensões do estranhamento). E paradoxalmente é como se a coisa encarnada nas diversas formas em que é capaz de metamorfosear-se, em capital, em valor de troca (...) é que pusesse sujeitos: os sujeitos como postos pela coisa, isto é, sujeitados.

sábado, 17 de novembro de 2012


Sobre o inconsciente e suas possibilidades.

Meditando sobre o inconsciente, temos algumas escolas que tratam da matéria de maneiras diferenciadas. A escola de Winnecot, por exemplo. Mas pensamos que é nas leituras da obra do próprio Freud, Lacan e Deleuze que podemos especular o que seria um inconsciente que atendesse, sem exceção, o paradigma da História. Ou seja, se tudo é cultura e história, então o inconsciente também o será. Importante ressaltar que nem Freud (1927; 1930; 1939), estudioso do psiquismo humano, desconsidera a sociedade em suas reflexões. O inconsciente freudiano é pensado em termos de uma relação social tida por Freud como primária, nuclear e, afirma-se socialmente constituída: não se trata de uma família tomada em universalidade, mas a família burguesa. Portanto, o “mapeamento” do inconsciente freudiano deve ser entendido como um esforço para desvelar o funcionamento de um inconsciente burguês não universalizado em categorias substancializadas.Acertadamente “
a psicanálise de Freud é a economia política da subjetividade do homem burguês”. Ao buscar escapar de compreensões que pouco auxiliam no entendimento da realidade em sua totalidade, considera-se os processos de formação da subjetividade vinculados tanto aos sistemas sociais como também ao campo do desejo. Afirma-se que a subjetividade acompanha as modificações políticas, econômicas, históricas e socioculturais. Ainda que se possa concordar que, ao nível inconsciente, vincula-se a reformulação do cogito cartesiano por Lacan "penso onde não sou" e "sou onde não penso", recusa-se a perspectiva de que a subjetividade seja reduzida a um fenômeno de natureza exclusivamente irracional evitando, assim, destituir a subjetividade e, portanto, o homem, de sua potência transformadora das condições objetivas da vida social. Como colocado por Marx “na medida em que reconhecemos a natureza como algo racional, desaparece a nossa dependência dela”. O entendimento da realidade e do homem não pode ser reduzido às projeções de fantasias edipianas irracionais incapazes de abandoná-lo. Análise essa que delimita o real a uma perspectiva particular do simbólico humano, do desejo e das idiossincrasias pessoais. A resistência a essas perspectivas reducionistas busca atentar para as deficiências em considerar a formação da subjetividade tendo como mote referencial o indivíduo ontologicamente isolado. Assim considerado, o indivíduo é entendido como destituído das capacidades e potencialidades de fazer seu próprio destino, haja vista, que a irracionalidade e o inconsciente se tornam imperativos e, por conseguinte, furta do indivíduo a autonomia de se fazer consciente no processo sócio - histórico de modo legitimo. Sugere-se que se trata de uma problemática que deve ser revisitada à luz das descobertas em outros campos das ciências sociais. Por conveniência, segue-se aqui a colocação teórico– formal de Násio (1993) de que o inconsciente só existe no set analítico. Por outro lado, o referencial psicanalítico evidencia uma mediação – com ênfase na mediação materna – entre indivíduo e mundo exterior que não deve ser ignorada nos estudos da subjetividade. Há ai uma interiorização-objetivação-exteriorização,diversa, mas representativa da relação sujeito – objeto fundamental para pensar a subjetividade em sua totalidade. Pensar a subjetividade sem considerar as relações de troca e as mediações simbólicas presentes na relação entre indivíduos e instituições reduzindo a subjetividade apenas às condições objetivas não é suficiente para compreender as relações ora mais, ora menos consciente das relações estabelecidas entre o indivíduo e o mundo.








O Grande-Outro lacaniano, é realmente a Matrix do século XXI
É nele que se encontra muitas das respostas para o desastre civilizacional que estamos acometidos todos os dias e em todos os tempos. A sociedade capitalista tem um trunfo em relação a esse inconsciente: ela consegue dirigir as pulsões e mantê-las razoavelmente sob controle. Desde que não reprima os estranhas formas de sexualizar e de se relacionar dos indivíduos pós-modernos. A questão crucial é: como "entrojetar" um indíviduo na loucura do cotidiano e mantê-lo funcionando psiquicamente bem? A medicalização do mundo e seu entorpecimento é a resposta desse fracasso civilizacional.
John B. Watson sabia exatamente o que estava fazendo com sua behaviórica e esta é reveladora de um sintoma próprio da pós-modernidade sendo o espetáculo encenado a céu aberto. Para analisar esse fenômeno espectral sem muita dificuldade, o método consiste em operar, ou seja, por em prática, os ensinamentos deleuzianos como ferramenta complementar. O horror no admirável mundo novo parece compatível com o experimento Kandinsky-Klee:

“Um historiador da arte espanhol descobriu o primeiro uso da arte moderna como forma deliberada de tortura: Kandinsky e Klee, assim como Bunuel e Dali, inspiraram uma série de celas secretas e centros de tortura construídos em Barcelona em 1938, obra do anarquista francês Alphonse Laurencic (de sobrenome esloveno!), que inventou um tipo de tortura “psicotécnica”: ele criou as chamadas “celas coloridas” como contribuição à luta contra as forças de Franco. As celas foram inspiradas tanto pelas idéias surrealistas e de abstração geométrica quanto por teorias artísticas vanguardistas sobre as propriedades psicológicas das cores. As camas ficavam em ângulos de 20° graus, tornando quase impossível dormir nelas, e no chão das celas de 0,90 metros por 1,80 metros havia tijolo e outros blocos geométricos espalhados para impedir que os prisioneiros andassem de um lado para o outro. Restava-lhes fitar as paredes, curvas e cobertas de cubos, quadrados, linhas retas e espirais psicoativas que usavam truques de cor, perspectiva e escala para provocar angustia e confusão mental. Efeitos de luz davam a impressão de que os desenhos vertiginosos se moviam nas paredes. Lourencic preferia usar o verde porque sua teoria dos efeitos psicológicos das várias cores, ele produzia melancolia e tristeza.”. (Zizek: 2006)

Uma perspectiva possível de análise obriga o leitor a se apegar a uma experiência imagética singular - a lógica dos conjuntos serve de facilitador à extensão do exemplo “ao infinito” dado que cada (micro) região do Globo esconde suas particularidades mais obscuras.
Os regimes totalitários como fenômeno próprio da modernidade associado (aleatoriamente aqui) à experiência fascista na Alemanha como fenômeno particular é a dimensão imagética do artigo.
Inicialmente, o extremismo ou as ações de caráter extremista não é característica exclusiva de neonazistas ou de grupos minoritários, por exemplo, terroristas islâmicos. O mesmo vale para a provinciana crença de que o tratamento dado às mulheres ou aos homossexuais no Oriente Médio corresponderia à mesma experiência acerca do feminismo sob a perspectiva ocidental. O fato de o Egito refletir uma lição democrática, e os muçulmanos serem os maiores leitores de poesia contradizem a falsa imagem midiática americana onde os outros são “bárbaros” não-democráticos esperando a cavalaria salvacionista de Deleuze.
Tendo a assertiva em vista, curiosamente, o extremismo parece disseminado em células e não mais atende aos estereótipos associados unicamente à figura mítica-Moloch de Hitler.
Acertadamente Ali (2005) assim coloca:
 “É um fracasso completo de a imaginação ocidental ver somente Adolf Hitler como inimigo. Isso começou durante a Guerra de Suez, em 1956, que chamo de a primeira guerra do Petróleo. Gamal Abder Nasser, o líder nacionalista do Egito, foi descrito pelo primeiro-ministro britânico Anthony Eden como um Hitler egípcio. E continuou sendo assim. Saddam Hussein se tornou Hitler quando deixou de ser amigo do Ocidente. E então, Milosevic se tornou Hitler. Os fascistas croatas e as brigadas especiais da SS na Bósnia e no Kosovo que lutavam por Hitler raramente são mencionados. Agora, a Al-Qaeda e o Talibã são retratados como islamo-fascistas. A dedução mais poderosa é de que Osama Bin Laden é outro Hitler, mesmo sem poder estatal. É uma afirmação grotesca se pensada com seriedade.”.
No entanto, as células se tornam eficientes em sua articulação em prol de um objetivo “comum”, justamente e perversamente, quando as aspirações gregas forem levadas a cabo. O efeito de uma sociedade em rede e de Controle é estendido às relações sociais como um todo onde a informação deve necessariamente se encontrar disponível. A “sinuca” do hilário e escatológico destino do “século deleuziano” (para usar as expressões de Foucault) está associada à tênue linha que distingue o real do virtual a partir de uma Lógica do Outro.
A profética frase de Marx no qual a História se apresenta primeiramente como tragédia e a segunda como farsa associado à nova economia política impõe à intelectualidade, à multidão esclarecida e às Instituições a árdua tarefa de administrar um surreal circo e se manter nos bastidores de um auxílio terapêutico a uma massa significativa de pessoas incapazes de simbolizar o nível necessário e básico para a sociedade atual[1].
A partir da perspectiva narrada, talvez a assertiva mais surpreendente decorra do fato de que a luta de classes nos países de tendências moralistas e/ou pouco democráticas será mais concreta e animalizada.
Por sua vez, o horror “sutil” presente no título talvez caiba aos países mais velhos, em especial, o Leste Europeu e os (ex)estados comunistas e pode ser remetido a uma violenta revanche de classe onde as pequenas e as sutis tramas conspiratórias “encenadas” nos palcos da intimidade se apresentem no temor do imaginário coletivo.
Esse temor (o que não significa realização de fato) é o produto mais bem elaborado de sociedades cuja regra de sobrevivência inculcada nos indivíduos a partir de uma Vida Capitalista, a saber, a concorrência e o consumismo, tornaram os valores últimos das aspirações humanas.
Em suma, são as relações sociais pautadas por uma sociedade de risco, em especial sociedades ricas e cultas, na medida em que a educação por si só não evita a incapacidade de simbolizar, as mais apropriadas para ilustrar a nova luta de classes. Essa é possível resposta à ascensão de regimes escravistas nos campos de concentração em volta do mundo no século xx e a manutenção da sobrevivência do trabalhador mediante (essa é a questão) uma complexa rede de relações impessoais exploratórias.
Talvez, a solução possível seja a habilidade da ciência na previsão e na prevenção de “máquinas inconscientes” que se encontram no limite da capacidade de simbolizar; capacidade essa que não necessariamente depende de educação ou da erudição. Essa sutileza implica possivelmente à volta do recalcado em “protótipos” maquiavélicos pouco propensos à simbolização. Podemos concluir que a “deficiência” nas mediações necessárias que permitam os indivíduos passarem do concreto para o simbólico não necessariamente é “suprimida” por educação, uma vez, que a perversidade em si é, tal como o mercado, é amoral.
As perspectivas “otimistas” para uma Europa Extremista possivelmente podem ser retratadas por duas metáforas curiosas, a saber, as clássicas cassadas - “elegantes” e “divertidas” - da outrora elite vitoriana (um remake empobrecido de La Règle Du Jeu onde o caçador literalmente virou a caça) e a as práticas laboratoriais experimentalista das experiências modernas no âmbito do privado.
O fundamental para nossos propósitos é que a questão do reflexo necessita de (re) organização e (re) construção produzindo novidades, isto é, produzindo a reflexão propriamente dita. A ênfase aqui é que os males do sistema social passado, potencialmente se refletirão na massa geracional criada sob a sinistra sombra dos vestígios das experiências limítrofes - ressaltando que o “trágico” destino singular de um indivíduo em curto-circuito independe do desejo dos censores, dos religiosos, dos cientistas e de qualquer outro, uma vez que a pulsão e suas vicissitudes estão “fora” de controle.
Por fim, a “alquimia” neurológica na supressão das angústias pelo acesso do Trigêmeo é a aproximação de uma (pseudo)cura na medida em que a supressão das mesmas por esses métodos incisivamente fisiológicos é uma aproximação nada gentil de uma encenação burlesca e asséptica de uma Eugênia que se descortina á vista das ciências e impõe como questão definitiva à emergência da Ética como ferramenta necessária aos impasses do “nó obsceno da ideologia”.




[1] Essa administração do espetáculo é evidentemente o retorno à Política em seu sentido aristotélico associado aos novos movimentos de articulação dos partidos políticos pelo mundo associado à tendência infeliz em substituir o perigo comunista pelo perigo muçulmano. Os neofascistas radicais e marginais - dos Republikaner a grupos xenófobos atualmente “coloridos” – têm a radicalização como maior perigo o fato de que os mesmos não hesitam em utilizar o discurso simpático de uma vertente preocupada com os valores históricos de uma esquerda humanista.