sábado, 17 de novembro de 2012

John B. Watson sabia exatamente o que estava fazendo com sua behaviórica e esta é reveladora de um sintoma próprio da pós-modernidade sendo o espetáculo encenado a céu aberto. Para analisar esse fenômeno espectral sem muita dificuldade, o método consiste em operar, ou seja, por em prática, os ensinamentos deleuzianos como ferramenta complementar. O horror no admirável mundo novo parece compatível com o experimento Kandinsky-Klee:

“Um historiador da arte espanhol descobriu o primeiro uso da arte moderna como forma deliberada de tortura: Kandinsky e Klee, assim como Bunuel e Dali, inspiraram uma série de celas secretas e centros de tortura construídos em Barcelona em 1938, obra do anarquista francês Alphonse Laurencic (de sobrenome esloveno!), que inventou um tipo de tortura “psicotécnica”: ele criou as chamadas “celas coloridas” como contribuição à luta contra as forças de Franco. As celas foram inspiradas tanto pelas idéias surrealistas e de abstração geométrica quanto por teorias artísticas vanguardistas sobre as propriedades psicológicas das cores. As camas ficavam em ângulos de 20° graus, tornando quase impossível dormir nelas, e no chão das celas de 0,90 metros por 1,80 metros havia tijolo e outros blocos geométricos espalhados para impedir que os prisioneiros andassem de um lado para o outro. Restava-lhes fitar as paredes, curvas e cobertas de cubos, quadrados, linhas retas e espirais psicoativas que usavam truques de cor, perspectiva e escala para provocar angustia e confusão mental. Efeitos de luz davam a impressão de que os desenhos vertiginosos se moviam nas paredes. Lourencic preferia usar o verde porque sua teoria dos efeitos psicológicos das várias cores, ele produzia melancolia e tristeza.”. (Zizek: 2006)

Uma perspectiva possível de análise obriga o leitor a se apegar a uma experiência imagética singular - a lógica dos conjuntos serve de facilitador à extensão do exemplo “ao infinito” dado que cada (micro) região do Globo esconde suas particularidades mais obscuras.
Os regimes totalitários como fenômeno próprio da modernidade associado (aleatoriamente aqui) à experiência fascista na Alemanha como fenômeno particular é a dimensão imagética do artigo.
Inicialmente, o extremismo ou as ações de caráter extremista não é característica exclusiva de neonazistas ou de grupos minoritários, por exemplo, terroristas islâmicos. O mesmo vale para a provinciana crença de que o tratamento dado às mulheres ou aos homossexuais no Oriente Médio corresponderia à mesma experiência acerca do feminismo sob a perspectiva ocidental. O fato de o Egito refletir uma lição democrática, e os muçulmanos serem os maiores leitores de poesia contradizem a falsa imagem midiática americana onde os outros são “bárbaros” não-democráticos esperando a cavalaria salvacionista de Deleuze.
Tendo a assertiva em vista, curiosamente, o extremismo parece disseminado em células e não mais atende aos estereótipos associados unicamente à figura mítica-Moloch de Hitler.
Acertadamente Ali (2005) assim coloca:
 “É um fracasso completo de a imaginação ocidental ver somente Adolf Hitler como inimigo. Isso começou durante a Guerra de Suez, em 1956, que chamo de a primeira guerra do Petróleo. Gamal Abder Nasser, o líder nacionalista do Egito, foi descrito pelo primeiro-ministro britânico Anthony Eden como um Hitler egípcio. E continuou sendo assim. Saddam Hussein se tornou Hitler quando deixou de ser amigo do Ocidente. E então, Milosevic se tornou Hitler. Os fascistas croatas e as brigadas especiais da SS na Bósnia e no Kosovo que lutavam por Hitler raramente são mencionados. Agora, a Al-Qaeda e o Talibã são retratados como islamo-fascistas. A dedução mais poderosa é de que Osama Bin Laden é outro Hitler, mesmo sem poder estatal. É uma afirmação grotesca se pensada com seriedade.”.
No entanto, as células se tornam eficientes em sua articulação em prol de um objetivo “comum”, justamente e perversamente, quando as aspirações gregas forem levadas a cabo. O efeito de uma sociedade em rede e de Controle é estendido às relações sociais como um todo onde a informação deve necessariamente se encontrar disponível. A “sinuca” do hilário e escatológico destino do “século deleuziano” (para usar as expressões de Foucault) está associada à tênue linha que distingue o real do virtual a partir de uma Lógica do Outro.
A profética frase de Marx no qual a História se apresenta primeiramente como tragédia e a segunda como farsa associado à nova economia política impõe à intelectualidade, à multidão esclarecida e às Instituições a árdua tarefa de administrar um surreal circo e se manter nos bastidores de um auxílio terapêutico a uma massa significativa de pessoas incapazes de simbolizar o nível necessário e básico para a sociedade atual[1].
A partir da perspectiva narrada, talvez a assertiva mais surpreendente decorra do fato de que a luta de classes nos países de tendências moralistas e/ou pouco democráticas será mais concreta e animalizada.
Por sua vez, o horror “sutil” presente no título talvez caiba aos países mais velhos, em especial, o Leste Europeu e os (ex)estados comunistas e pode ser remetido a uma violenta revanche de classe onde as pequenas e as sutis tramas conspiratórias “encenadas” nos palcos da intimidade se apresentem no temor do imaginário coletivo.
Esse temor (o que não significa realização de fato) é o produto mais bem elaborado de sociedades cuja regra de sobrevivência inculcada nos indivíduos a partir de uma Vida Capitalista, a saber, a concorrência e o consumismo, tornaram os valores últimos das aspirações humanas.
Em suma, são as relações sociais pautadas por uma sociedade de risco, em especial sociedades ricas e cultas, na medida em que a educação por si só não evita a incapacidade de simbolizar, as mais apropriadas para ilustrar a nova luta de classes. Essa é possível resposta à ascensão de regimes escravistas nos campos de concentração em volta do mundo no século xx e a manutenção da sobrevivência do trabalhador mediante (essa é a questão) uma complexa rede de relações impessoais exploratórias.
Talvez, a solução possível seja a habilidade da ciência na previsão e na prevenção de “máquinas inconscientes” que se encontram no limite da capacidade de simbolizar; capacidade essa que não necessariamente depende de educação ou da erudição. Essa sutileza implica possivelmente à volta do recalcado em “protótipos” maquiavélicos pouco propensos à simbolização. Podemos concluir que a “deficiência” nas mediações necessárias que permitam os indivíduos passarem do concreto para o simbólico não necessariamente é “suprimida” por educação, uma vez, que a perversidade em si é, tal como o mercado, é amoral.
As perspectivas “otimistas” para uma Europa Extremista possivelmente podem ser retratadas por duas metáforas curiosas, a saber, as clássicas cassadas - “elegantes” e “divertidas” - da outrora elite vitoriana (um remake empobrecido de La Règle Du Jeu onde o caçador literalmente virou a caça) e a as práticas laboratoriais experimentalista das experiências modernas no âmbito do privado.
O fundamental para nossos propósitos é que a questão do reflexo necessita de (re) organização e (re) construção produzindo novidades, isto é, produzindo a reflexão propriamente dita. A ênfase aqui é que os males do sistema social passado, potencialmente se refletirão na massa geracional criada sob a sinistra sombra dos vestígios das experiências limítrofes - ressaltando que o “trágico” destino singular de um indivíduo em curto-circuito independe do desejo dos censores, dos religiosos, dos cientistas e de qualquer outro, uma vez que a pulsão e suas vicissitudes estão “fora” de controle.
Por fim, a “alquimia” neurológica na supressão das angústias pelo acesso do Trigêmeo é a aproximação de uma (pseudo)cura na medida em que a supressão das mesmas por esses métodos incisivamente fisiológicos é uma aproximação nada gentil de uma encenação burlesca e asséptica de uma Eugênia que se descortina á vista das ciências e impõe como questão definitiva à emergência da Ética como ferramenta necessária aos impasses do “nó obsceno da ideologia”.




[1] Essa administração do espetáculo é evidentemente o retorno à Política em seu sentido aristotélico associado aos novos movimentos de articulação dos partidos políticos pelo mundo associado à tendência infeliz em substituir o perigo comunista pelo perigo muçulmano. Os neofascistas radicais e marginais - dos Republikaner a grupos xenófobos atualmente “coloridos” – têm a radicalização como maior perigo o fato de que os mesmos não hesitam em utilizar o discurso simpático de uma vertente preocupada com os valores históricos de uma esquerda humanista.

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