terça-feira, 20 de novembro de 2012

A negação Ontológica


A negação ontológica
se desdobra na generalização das relações coisificadas entre os homens, buscando atender o imperativo da lógica mercadoria sobre todas as outras lógicas presentes nas relações humanas. Porém, essa negação ontológica é mais formal do que real. As ações dos indivíduos são detentoras de lógicas heterogêneas e lógicas-outras de ação que remetem a diversas lógicas do sistema social para além da esfera do trabalho. Deve-se ter em mente as dificuldades em considerar a existência entre uma adequação absoluta do mundo objetivo e do subjetivo e voltar o enfoque para um entendimento dialético entre estruturas sociais e subjetividade em sua totalidade. A “dessubjetivação”, pensada nesses termos, é resultado de uma “desefetivação” e sua expansão lógica de coisificação é fundamental para a reprodução do capitalismo em sua faceta exploratória e depreciativa do homem em seu sentido genérico. Essa “coisificação” da subjetividade por meio de intensos processos de captura e, portanto, de dessubjetivação, é o espelho de uma subjetividade privatizada e contrapartida da transformação do homem em uma mercadoria como outra qualquer uma vez que o mesmo faz parte da ciranda das equivalências generalizadas da forma mercadoria. Silveira define de modo sucinto o sujeitar do trabalhador: Como coisa, a natureza não é objeto para o homem, no sentido de que não resulta da atividade pratica de um sujeito. Por conseguinte, mesmo sendo constituída como coisa na historia, isto é, pelo homem ela é vivenciada praticamente de uma forma abstrata, como se fosse dotada de poder e de autonomia próprios (essa é precisamente uma das dimensões do estranhamento). E paradoxalmente é como se a coisa encarnada nas diversas formas em que é capaz de metamorfosear-se, em capital, em valor de troca (...) é que pusesse sujeitos: os sujeitos como postos pela coisa, isto é, sujeitados.

O produto do trabalho, ao entrar na ciranda da troca capitalista, já não mais diz respeito ao trabalhador que a produziu, uma vez que, por equivalência generalizada, ele mesmo é uma mercadoria tal como o objeto estranhado. À necessidade de objetivar a vida, de construir e reproduzir a realidade material por meio de relações sociais específicas é atribuída um elemento indispensável e irredutível para que essas mesmas necessidades possam ser efetivadas: a presença do próprio homem. É a impossibilidade, ao menos no presente, da realização da idealidade do capitalismo em não mais necessitar dos aparelhos de dominação para impor sua ordem - uma vez que do homem sempre necessitará – é que surge a necessidade de uma captura que mantenha o trabalhador no mundo estranhado. O corpo dócil é extensão de uma dessubjetivação em ação cujo agenciamento da subjetividade visa à conformação do trabalhador por meio de uma manipulação da subjetividade, direcionando-a ao atendimento dos desejos irracionais da expansão capitalista. A “nova’ subjetividade deve ser não violenta e resignada e o “novo” homem deve estar imerso por inteiro na cotidianidade naturalizada cujas capacidades criadoras, produtivas e cognitivas estão homogeneizadas em função do capital. A venda da força de trabalho por um salário se estende à “venda” da autonomia subjetiva do trabalhador - irônica e perversamente uma venda sem contrapartida salarial, haja vista, que o processo de dessubjetivação é parte de um processo de captura da subjetividade do trabalhador explorado sem que o mesmo tenha consciência da violência a que está exposto.

No termo
captura se encontra inclusa, em um dos seus sentidos, uma ausência de autonomia e liberdade remetendo a uma idéia de expropriação indevida. Não se precisa capturar algo que se possui. À captura é dada a função, junto ao fenômeno da alienação e da fetichização social, de manter atuante a condição de proletariedade e a alienação dos meios de produção. A forma estranhada pressupõe também uma exploração corporal, isto é, uma exploração marcada no corpo dos destituídos dos meios de produção, cuja subjetividade é o nexo que permite a esse corpo estabelecer um vínculo psicofísico com as relações de produção. O fenômeno do processo de dessubjetivação atende os requisitos, para uma compreensão analítica, de método psicossocial, cuja fronteira nem sempre é nítida e se dá de modo dialético entre as instâncias objetivas do social e subjetivas do individuo em sociedade. No entanto, se parte da subjetividade é constituída na relação entre o homem e seu produto de trabalho, não só os objetos entram na lógica da coisificação, mas também as relações que os homens estabelecem entre si passam a atender aos imperativos da coisificação e, dentre eles, à coisificação da relação entre homem e produto de seu trabalho, portanto, de uma subjetividade ontologicamente considerada. É sugerido pensar a dessubjetivação como uma extensão do mundo objetivado em uma relação estranhada: A dessubjetivação do trabalho é um processo de negação do elemento subjetivo; pelo processo de dessubjetivação o trabalhador é transformado de sujeito em coisa. Se essa transformação já é dada pela simples venda da força de trabalho, seu caráter é aprofundado na medida em que o trabalhador se torna um objeto manipulável pela ciência. Assim, a dessubjetivação do trabalho torna a atividade do trabalhador algo em que esse se vê negado como sujeito. Através da dessubjetivação as potencialidades subjetivas do trabalhador se apresentam como independentes e hostis a ele, como pertencentes a um outro. A dessubjetivação reforça o caráter hostil e estranho que o processo de trabalho tem na produção capitalista ao reduzir os elementos subjetivos ao estatuto de coisa.


 
O Trabalhador como Coisa: a velha alienação e a metamorfose do trabalhador.

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