Para pensar uma filosofia maquínica é necessário sugerir que a Morte tem um papel fundamental porque ela representa, de maneira estritamente biológica (e somente nessa perspectiva podemos compreênder a morte já que somos, em essência, um organismo biológico), o derradeiro final. Filosoficamente devemos minar especulações que possuam qualquer caráter mágico. O que há é uma sucessão de máquinas: máquina biológica, máquina simbólica, máquina química e, algumas vezes, máquina social. Máquinas dependem de circuitos, e eles estão por toda parte: no corpo humano, no campo do desejo, na constituição da psiquê, nas instituições jurídicas etc. Pois bem, se compreendermos com sinceridade que realmente o que há são máquinas de funcionamentos (codificáveis - Gênoma, formação do inconsciente já relativamente codificado, ligação de átomos e energia codificáveis etc) destituídas de qualquer sentido a priori, a relação de causa e efeito fica cada vez mais clara. Todo sentido, ou tentativa de atribuir um sentido à existência, sempre será uma construção discursiva humana extremamente subjetiva. A única certeza que temos é que as máquinas avariam, ou seja, se desgastam e muitas vezes chegam ao seu final por não ter mais energia.
A Astrofisíca já sabe: O SOL morrerá em alguns bilhões de ano. O fim do planeta terra (se não desenvolvermos tecnologia para sobreviver sem o sol) já está com os dias contados.
As máquinas chegam ao seu fim. E depois desse fim, não há absolutamente nada - lembremos que a invenção de vida após a morte não passa de uma ficção. Sendo esse fato, o fim do funcionamento de uma máquina,ou seja, sua morte, de uma obviedade gritante, fica impresso e registrado nos nossos mais profundos sentimentos o verdadeiro pavor frente a esse Vazio insuportável. Esse vácuo existêncial também está presente no Universo. Senão vejamos: é certo pelos mais sofisticados cálculos que a probabilidade de um asteróide nesse exato momento estar caminhando em direção a terra (devido a forças do acaso, o meteoro não possui o propósito de destruir a terra obviamente|) é extremamente plausível (compreendendo a infinitude que é o Universo e a quantidade de meteoros que viajam pelo espaço); e esse encontro catástrófico liberaria energia para dizimar toda a vida do planeta. E isso já aconteceu no período jurássico. Não seria uma novidade.
As forças do Acaso: Fim da Humanidade sem qualquer sentido em si. Forças da Natureza, apenas.
A Morte é própria da força da natureza, esse locus onde não subsiste sentido além da sobrevivência. O encontro com essa Verdade crua, nos lança ao Horror do Vazio. Como seres de espécie aptos a ter consciência de seu fim, nós homens, em resposta a esse terror que é a morte, forjamos meios de conviver com ela atribuindo à Morte todo um colorido especial. Desde os primórdios, a maior parte das tribos e a maior parte de nossos ancestrais atribuíram um sentido mágico à Morte. Criamos deuses, criamos histórias e forjamos um sentido. Preencher esse vácuo é essencial para uma boa saúde mental, isto é, somos poupados de grandes reflexões sobre o que é a morte em sua crueza, e contamos com uma sofisticada ilusão consentida e aceita por maior parte da humanidade - a Religião. Preencher esse vácuo é uma das funções da igreja na sua criação de santos e Deus. A morte é a força mais devastadora que nossa psiquê pode encontrar no meio de seu desenvolvimento. Tão devastadora que em sua tentativa de promover uma "paz (IN)terior"consegue se materializar em instituições sociais destinadas a reforçarem o Mito.
A Morte não se manifesta somente como algo que fugimos. Pelo contrário, em alguns indivíduos, a morte é a própria força motora - submetidos à uma Pulsão de Morte, alguns indivíduos tem o papel de reforça-la e sempre nos fazer lembrar de que há uma Pulsão especial, uma força que atraí alguns a ter encontros particularizados com a morte e externalizá-la no próprio corpo - um suicída no caso extremo, um desejo de matar (assassínos), e até mesmo autoflagelações que culminam em risco de vida. As manifestações são múltiplas. Mas é característica fundamental da máquina humana o seu fim. Como de qualquer ser vivo, aliás e até seres inanimados.
O encontro com o Real (Lacaniano): Máquina "avariada" e as entranhas da Natureza. Nada além.



Nenhum comentário:
Postar um comentário