segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Para ajudar na compreensão dos fenômenos religiosos em geral devemos observar a existência crucial daquilo que sem ele a religião poderia nem existir como a conhecemos, isto é, o SOFRIMENTO. O papel do sofrimento é fundamental porque, além da dor psíquica, padecemos muitas vezes da dor corporal (que pode ser exclusivamente fisiológica ou psicológica que atravessa o corpo e cria-se as famosos sintomas e neuroses psico somáticas). Esse padecimento leva alguns seres humanos a buscar saídas muitas vezes irracionais. Vejamos a história do próprio Cristo: é um percalço de sofrimentos. Há sofrimentos em todas as partes. A maior parte dos encontros entre Jesus e seus fiéis são pautados por conflitos permeados de dor e angústias próprias da miséria da condição humana. Isso explica, em partes, porque os evangélicos necessitam explicar e vivenciar seus sofrimentos dentro de um universo destituído de qualquer garantia de existência, isto é, o universo místico. Muitos esperam a sua cura de um poder maior, invísível e extraordinário. Podemos até dizer que se trata de um tipo de pensamento muito próprio dos nossos antepassados primitivos. Os fiéis, então, depositam suas expectativas em um espaço vazio que se sustenta apenas pelas narrativas biblícas e relatos de outros fiéis que acreditam que foram "abençoados". A fé é um verdadeiro salto no escuro.



A FÉ, UM SALTO NO ESCURO DE UM PENSAMENTO PRIMITIVO



Pensamos, assim, que no campo teórico dos estudos sociais da religião deveria-se levar em consideração o fenômeno do sofrimento como um dos principais pilares que sustenta a existência da Religião. Mas vale uma ressalva: geralmente os fiéis atribuem ao próprio sofrimento sentidos cujas razões desconhecem, isto é, muitas vezes não se sabe do que exatamente se sofre e nem o porquê. Podemos observar que existe, primeiramente, um véu de ignorância por parte dos fiéis. Essa ignorância é um desconhecimento das raízes de seus sofrimentos - nesse caso os mal-estares psíquicos não são explicados no âmbito da psiquê ou dos fenômenos mentais, mas atribuido às forças mágicas. Pelo contrário, os fiéis insistem em causas mágicas e correlações sem qualquer tipo de prova concreta. Já os sofrimentos fisiológicos apesar de atribuirem as causas da dor a um mal funcionamento do corpo humano, ainda assim, os crentes atrelam às explicações médicas fenômenos sobrenaturais. É o caso de um fiel canceroso que se apega ao pensamento mágico para encontrar uma justificativa mística de um desequilíbrio que ocorre na máquina do corpo humano. Importante lembrar que dor psicológica e dor física podem se entrecruzarem: tensões psíquicas influencia o fisiológico e outras vezes tensões fisiológicas comprimem o estado psíquico.

Se o sofrimento advém da instância psíquica ou física ele também advém dos impasses da configuração social estabelecida pelas sociedades humanas. O sofrimento de se estar desempregado, estar sem recursos materiais etc também levam muitos indivíduos à esteira da fé. Mas peguemos um exemplo muito elucidativo que ajuda a entender o porquê dos fiéis atribuírem à Deus certas curas patológicas. Vamos aos fatos: Um evangélico sofre de alguma dor física ou mal estar psíquico. Após passarem pelos especialistas (médicos e funcionários da saúde mental) seus sofrimentos não cessam nem mesmo com remédios sintéticos. Há um conflito psíquico a ser resolvido (depressões, angústias, apatias etc, por exemplo) e esse conflito vai ser resolvido na arena dos templos e casas de oração. E em alguns casos, principalmente no caso dos mais humildes e devotos, algumas vezes o sofrimento é cessado. Ora, o modo como os religiosos resolvem seus conflitos psíquicos\orgânicos é um modo exemplar que pode revelar, por incrível que pareça, um traço presente na História Ocidental e Oriental e que pode representar um mecanismo próprio da psiquê humana em um contexto evolutivo. É fato (e isso é um dogma irrefutável para quem quer pensar com retidão) que não convém, a bem do conhecimento, acreditar que há um Deus que cura. Sendo assim, Deus deve estar morto, como bem disse Nietsche. Retirando qualquer misticismo de cena, o primeiro fato a reconhecer é que há de fato curas. Não podemos desprezar os relatos dos evangélicos quando dizem que "foram curadas por Deus".

Se há então o fenômeno da cura, a quem podemos atribuir esse fato a não ser ao próprio indivíduo que foi curado? Se há uma cura ela ocorre exclusivamente no âmbito psíquico, nos meandros de suas forças já tão conhecidas pelos psicanalistas. Desde conversões histéricas mais extremadas à relações mais sutis, o que temos é um fenômeno de AUTOCURA. Esse processo de auto cura necessita da fé, dos templos (cena) e dos missionários que simbolicamente representam Deus na terra. O que ocorre nos cultos e nas orações é mais uma manipulação no simbólico do sujeito. Uma manipulação, que longe de ser maquiavélica, se dá sob a permissão do próprio sujeito.



FALE COM O APÓSTOLO: MANIPULAÇÃO SIMBÓLICA E SIMBIOSE PSIQUICA NOS PROCESSOS DE "CURA"



A relação do homem religioso com o templo ou com o pastor é de pura significação simbólica. Arranjo simbólico que flutua à medida que os crentes se relacionam com a instituição religiosa e seus representantes. Pode-se sugerir que o inconsciente e suas relações com o mundo mágico, o mundo de deuses, pode ser, em última instância, uma saída do conhecido mecanismo de defesa do inconsciente diante o sofrimento"inexplicável" por parte dos seus fiéis. Há um jogo simbólico capaz de movimentar sentidos, energia psiquíca e, principalmente, um jogo que reconfigura as inúmeras forças mentais por meio de combinações simbólicas que fazem sentido na vida e na particularidade dos fiéis. Seria interessante pensar que a própria religião é uma criação do universo simbólico que reflete na "terrenidade" um impasse existencial maior, a saber, o impasse que todos nós confrontamos com a morte.Voltaremos, outro dia, nessas relações com maior profundidade.



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